Toda história é um mosaico de muitas vozes, algumas delas estridentes, outras sussurradas (ou sufocadas). Lembrei disso ao ler há poucos dias o romance Reparação, do escritor britânico Ian McEwan, lançado no início deste século. Além de ser uma trama sobre culpa – aquela decorrente de enganos que causam resultados trágicos –, também discute o que significa representar a realidade por meio da escrita.
A personagem principal, adolescente que quer se tornar escritora, tem uma espécie de “revelação” ao perceber que poderia descrever a mesma situação a partir de pontos de vista diferentes. Com a narrativa organizada desse modo, ninguém seria necessariamente bom ou mau, herói ou vilão. “Bastava que mostrasse mentes separadas, tão vivas quanto a dela, debatendo-se com a ideia de que as outras mentes eram igualmente vivas.”
Mentes que podem interpretar o mundo de forma completamente diversa, e organizarem suas vidas a partir de valorações inclusive conflitantes. Que existem de qualquer maneira, e de nada adiantaria tentar apagá-las.
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Do que resulta, no texto de McEwan, a seguinte observação: não são apenas o mal e as adversidades que tornam as pessoas infelizes. Em grande parte, é “a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós”. Principalmente quando se trata do “totalmente outro”, aquele com quem não sabemos nos identificar em nível nenhum.
Inevitável não estabelecer uma relação com a profissão na qual trabalho há mais de 30 anos. O desafio do jornalismo, diariamente, é manter seu compromisso de contar todos os lados de uma história quando, muitas vezes, os envolvidos no enredo exigem que se dê prioridade e voz somente para o lado deles – que invariavelmente seria o certo, o verdadeiro, o justo.
Mas existem outras vozes, inclusive conflitantes, e é inútil tentar apagá-las. Numa época em que se confunde jornalismo com a panfletagem vulgar feita por alguns influenciadores, é cada vez mais urgente o trabalho fundamental de apurar informações, ouvir todos os lados e versões numa questão e apresentar a notícia de modo ponderado, sem cair no sectarismo e partidarismo fáceis. Sem ceder à tentação de distorcer fatos e espalhar meias verdades ou mentiras inteiras para agradar a esse ou aquele.
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Porque jornalistas não existem para doutrinar ou converter ninguém. Também a eles poderiam servir os versos do poema de Ferreira Gullar que empresta seu título a este texto:
“estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz”.
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