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GILBERTO JASPER

Medo eterno

Estudei no Colégio São Miguel, de freiras, em Arroio do Meio. Entre as lembranças guardo imagens da tradicional “enchente de São Miguel”, santo festejado dia 29. Meu pai costumava nos levar depois do almoço para verificar os estragos da água. As fotos das cheias constam do arquivo que incluía imagens de aniversários, Natal e Ano Novo, além dos veraneios em Tramandaí.

Mais tarde, quando visitava minha mãe viúva, em Arroio do Meio, depois da sobremesa, a tradição era manusear quatro caixas de papelão de camisas e de sapatos, repletas de fotografias. Sabia de cor e salteado a descrição que ela fazia das imagens com as respectivas anotações de lugar e data no verso.

As enchentes fazem parte do meu universo infantil e adolescente. Morava no interior, a três quilômetros do perímetro urbano, e não raro ficava em casa em épocas de chuvarada ao invés de ir à escola. Com o transbordamento de um açude perto de casa, era impossível seguir até a cidade.

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Esta semana, mais uma vez, os gaúchos foram torturados pelo fantasma das águas. Desde setembro/novembro de 2023, as trovoadas e os dias consecutivos de enxurrada geram terror diante da possibilidade de repetição da tragédia que teve seu auge em maio de 2024.

No final de semana estive no Litoral. Voltei de Capão da Canoa às 13 horas de domingo. Fazia 23 graus. À medida que me aproximava de Porto Alegre, o termômetro subia, chegando a 29 graus às 17 horas. Não era preciso ser vidente ou meteorologista para saber que algo grave estava por acontecer. E assim se sucedeu.

Às 2h30 da madrugada, fui acordado pelo barulho de portas e janelas batendo, apesar de o apartamento estar fechado. O alerta vermelho da Defesa Civil soou no celular com “tempestade severa”. O caos era questão de tempo.

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Uma ruidosa ventania perdurou por 20 minutos quando teve início uma sucessão ensurdecedora de trovoadas, acompanhada de raios que clareavam a escuridão. Até às 5 horas foi impossível conciliar o sono.

O medo de que as vidraças da sacada estourassem ou algo pior ocorresse incomodava. A segunda-feira continuou ruidosa, com trovões e chuva forte intermitente. O quadro seguiu-se até a noite, quando finalmente o aguaceiro cessou.

Ao longo da semana, o noticiário se ocupou de milagres que salvaram pessoas e de tragédias de gente arrastada pela força das águas. No Vale do Taquari, Litoral e Região Metropolitana de Porto Alegre proliferaram destelhamentos. Rios transbordaram e o fantasma de 2024 foi revivido entre as famílias gaúchas, semeando pavor da repetição de nova calamidade.

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Enquanto redijo esta crônica, os prejuízos estão sendo contabilizados. Não importam cifras. A única certeza é que, por muito tempo, teremos que conviver com a sombra do pavor das chuvas.

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