Há histórias profissionais que começam muito antes da profissão. A da juíza Márcia Inês Doebber Wrasse começou em Candelária, entre livros, trabalho e uma família que, mesmo diante das dificuldades financeiras, nunca deixou de tratar a educação como prioridade.
Aos 15 anos, enquanto cursava o Ensino Médio à noite, ela começou a trabalhar para continuar os estudos em uma escola particular ligada à Igreja Luterana. Aos 20, já casada, grávida do primeiro filho e trabalhando, seguiu na faculdade de Direito. Anos depois, enfrentaria sucessivas tentativas em concursos até conquistar a magistratura.
Hoje, aos 56 anos, depois de quase três décadas de carreira, Márcia é titular da 1ª Vara Criminal e do Tribunal do Júri de Santa Cruz do Sul, função que exerce desde 2015. É uma magistrada de perfil discreto, que procura preservar a vida pessoal e a família em uma profissão marcada por decisões sobre liberdade, patrimônio e conflitos.
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Ao olhar para a própria trajetória, ela não destaca apenas as conquistas profissionais. Fala sobre estudo, esforço e apoio e da responsabilidade de nunca deixar de enxergar pessoas onde existem processos. E, quando precisa resumir aquilo que considera essencial para a vida, recorre a uma frase de uma música de Emicida: “O amor é o segredo de tudo”.
Rotina
Toda semana, Márcia se senta diante de pessoas envolvidas em processos que podem mudar suas vidas. Na 1ª Vara Criminal e no Tribunal do Júri de Santa Cruz do Sul, a rotina é repleta de audiências, interrogatórios, depoimentos e julgamentos. No júri, cabe a ela conduzir a sessão, garantir o cumprimento das regras e, depois da decisão dos jurados, proferir a sentença.
É uma função que ela trata menos como autoridade e mais como responsabilidade. Das sete horas diárias de trabalho, estima que cerca de cinco sejam ocupadas por audiências. No segundo semestre deste ano, passou a realizar cerca de quatro júris por mês, em razão do esforço para reduzir o acúmulo provocado pela pandemia e da prioridade dos processos com réus presos.
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O número de processos em andamento oscila, mas a fila nunca termina. Só no júri varia entre 70 e 100 ao mesmo tempo. Quando alguns se encerram, outros se iniciam. Para lidar com a tensão, faz fisioterapia, Pilates e musculação. O trabalho também já trouxe consequências físicas.
Durante os anos em que atuou em Venâncio Aires, morando em Santa Cruz, fazia diariamente o deslocamento entre as duas cidades. O trânsito, principalmente no fim da tarde, tornou-se uma fonte de estresse e contribuiu para o surgimento de dores musculares e da síndrome dolorosa miofascial, que trata até hoje.
Mas há uma preocupação que ultrapassa o próprio corpo: não se acostumar com a dureza dos casos. No início da carreira, ouviu de um desembargador que nunca deveria perder a capacidade de se indignar. Para ela, deixar de se indignar significaria também deixar de se importar com o que acontece diante dos olhos.
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Trabalhar para estudar
Natural de Candelária, fez ali sua formação escolar. Era a mais velha de quatro irmãos. O pai estudou até a quarta série e a mãe concluiu o Ensino Médio. Mesmo com dificuldades financeiras, os pais sempre incentivaram os filhos a estudar. O pai era comerciante e a mãe o auxiliava no negócio. Nos anos de 1980, a família precisou encerrar a atividade comercial. Os irmãos passaram para a rede pública; no entanto, Márcia queria continuar na escola ligada à Igreja Luterana, da qual a família fazia parte.
Aos 15 anos, começou a auxiliar em um supermercado. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. Depois, passou cerca de dois anos na Associação Comercial e Industrial de Candelária (Acic). Foi ali que o Direito entrou em seus planos. Ao perceber que o estatuto da entidade estava desatualizado, propôs uma reformulação e descobriu interesse por regras e organização. Antes, pensava em cursar Psicologia.
Em 1987, prestou vestibular para Direito e, no ano seguinte, iniciou a graduação na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Continuava morando em Candelária, trabalhava durante o dia e viajava de ônibus para as aulas noturnas.
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Estudos como parte do caminho
Márcia se formou em Direito em dezembro de 1992, na Unisc. A magistratura surgiu como possibilidade no último semestre da faculdade, depois de uma palestra. Ela buscava uma profissão em que pudesse se sentir útil à sociedade.
Em 1993, ingressou na Escola Superior da Magistratura, em Porto Alegre. A partir do ano seguinte, passou a prestar concursos públicos, tendo também tentado outras carreiras. Enquanto estudava, trabalhou como advogada em Candelária e manteve a preparação de forma contínua.
As reprovações fizeram parte do caminho. Em determinado momento, voltou a Porto Alegre para se dedicar de forma mais intensa ao concurso, contando com o apoio de familiares e amigos. Em 1997 nasceu sua filha. Aprovada em 1998, assumiu a magistratura em 23 de abril de 1999.
Ela acredita que a própria formação escolar também explica parte do esforço exigido nos estudos. Como não teve acesso, na educação básica, a conteúdos que considerava importantes para os concursos, precisou buscar conhecimentos por conta própria.
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Passou por Encantado, São Sepé, São Pedro do Sul, Santa Maria e Venâncio Aires antes de chegar a Santa Cruz. Em cada comarca, atuou em diferentes áreas da Justiça. Em Venâncio, trabalhou também com violência doméstica e participou da criação de um grupo que reunia profissionais de diferentes áreas para discutir prevenção e atendimento. Em março de 2015, assumiu a 1ª Vara Criminal e o Tribunal do Júri de Santa Cruz do Sul.
Entre a toga e a vida pessoal
Márcia viu o Judiciário mudar. Quando começou, não havia computador nem a estrutura de assessoria existente hoje. As audiências eram registradas em máquinas de escrever. Atualmente, conta com servidoras, estagiários e assessoria para dar conta da demanda.
Ao mesmo tempo, percebeu o crescimento da criminalidade, especialmente com a expansão dos crimes relacionados às drogas. Também observa que conflitos cada vez menores chegam ao Judiciário, aumentando a sobrecarga.
Alguns casos, porém, não podem ser tratados apenas como números. Situações envolvendo crianças e adolescentes, principalmente relacionadas à violência sexual, estão entre as que mais a marcaram.
A discrição é uma escolha consciente. Ao longo da carreira, recebeu ameaças veladas, embora nunca tenha sofrido uma ameaça direta que exigisse segurança. Prefere preservar a vida pessoal e a família.
Fora do fórum, há muito da menina tímida de Candelária. Na infância e na adolescência, participou de coral, teatro e grupo de jovens da igreja. É luterana, gosta de ler e de música. No movimento escoteiro, aprendeu um princípio que ainda leva consigo: fazer sempre o melhor possível.
Educação como transformação social
Quando fala sobre criminalidade, Márcia volta ao começo da própria história. Para ela, educação é uma possibilidade concreta de transformação social. “Não vamos ter mudança enquanto não houver investimento real e de qualidade na educação básica. É a luz no fim do túnel. Antes disso, a criminalidade não vai diminuir.”
Aos 56 anos, Márcia está próxima de encerrar a carreira. Pelas regras de transição da Previdência, poderá se aposentar aos 57 anos, no próximo ano, e pretende fazê-lo. Não alimenta o desejo de deixar Santa Cruz para assumir outro cargo. A possibilidade de uma promoção para desembargadora existe, mas nunca esteve entre seus objetivos.
Ao olhar para a própria trajetória, diz ter a tranquilidade de saber que sempre fez o melhor que podia, dentro das condições que tinha.
E talvez a síntese mais pessoal esteja em uma música de Emicida que a marcou. Entre os versos de “Principia”, uma frase ficou com ela: “O amor é o segredo de tudo”.
Para Márcia, é isso que permanece quando o restante perde importância: o amor pela família, pelos amigos e pelo outro. “Se as pessoas buscassem mais o amor, nós todos teríamos uma vida muito melhor.”

Márcia atuou como juíza em Santa Maria entre 2008 e 2012,
antes de seguir para Venâncio Aires e, posteriormente,
Santa Cruz do Sul
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