Como o legado de uma jovem técnica de enfermagem desafia os números da rejeição familiar no
Rio Grande do Sul? Algumas histórias conseguem iluminar temas complexos por meio da força de uma única vida. É o caso de Claudia Eduarda da Silva, a Duda, agricultora e técnica de enfermagem de Rio Pardo, que transformou sua despedida em um gesto de esperança para pessoas que aguardavam por um transplante.
Ela nasceu em um centro cirúrgico, onde trabalhou por muitos anos, e no dia do seu aniversário, seu último ato de amor também aconteceu em um centro cirúrgico. A partir de uma apuração que percorre hospitais, dados oficiais, profissionais da saúde e os corredores onde decisões precisam ser tomadas, esta reportagem especial mostra os desafios da doação de órgãos no Rio Grande do Sul.
Em meio à dor de famílias que enfrentam a perda de um ente querido, emerge uma realidade marcada por filas de espera, obstáculos culturais e altos índices de recusa familiar. Ao acompanhar a trajetória de Duda e a decisão tomada por seus familiares, o trabalho revela os bastidores de um sistema que depende da solidariedade para continuar salvando vidas.
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Mais do que uma reportagem sobre transplantes, é uma reflexão sobre legado, sobre generosidade e sobre a capacidade humana de fazer nascer esperança justamente quando tudo parece
chegar ao fim.
Claudia Eduarda da Silva, a Duda
No dia 5 de junho de 1998, a maternidade do hospital de Rio Pardo testemunhou o nascimento de Claudia Eduarda da Silva. Como se o destino amarrasse suas linhas desde o primeiro choro, a menina que nasceu sob as luzes de um hospital escolheu fazer das salas de cirurgia o seu altar de dedicação ao próximo. Tornou-se Duda: técnica de enfermagem, cuidadora incansável e o braço direito de uma família de agricultores do interior.
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Exatamente 28 anos depois, no dia 5 de junho de 2026, o ciclo completou-se com uma precisão cirúrgica e dolorosa. Às 12h14, dentro do bloco cirúrgico do Hospital de Caridade e Beneficência de Cachoeira do Sul (HCB), os aparelhos que mantinham o corpo de Duda aquecido foram desligados. Não foi um fim: foi uma entrega. No exato dia de seu aniversário, o coração que pulsou por quase três décadas no peito de uma jovem do interior deu as suas últimas batidas ali para começar a pulsar em outra história.
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Por meio da doação de múltiplos órgãos, a despedida de Duda transformou-se no maior manifesto de amor que a saúde pública pode registrar: a sobrevivência de seis pessoas que ganharam um novo capítulo quando as cortinas da vida dela se fecharam. Atrás desse ato de coragem, no entanto, há uma engrenagem complexa que envolve a dor profunda de uma família, uma corrida aérea contra o relógio e uma barreira estatística silenciosa: a negativa familiar, o principal obstáculo para que vidas na fila de espera tenham o mesmo destino de recomeço.
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A rotina da família Silva na pacata localidade de João Rodrigues, interior de Rio Pardo, sempre foi moldada pelo cultivo da terra. Ali, desde 1988, os pais Paulo Ricardo, de 66 anos, e Marines Santos da Silva, 64 anos, cultivam tabaco com o orgulho típico da agricultura familiar. Das quatro filhas do casal, Duda era a caçula. Ela dividia seus dias entre os cuidados com o hospital na cidade e o trabalho pesado na lavoura, ao lado do pai.
Duda tinha as mãos calejadas da roça, mas se orgulhava disso. Durante as aulas do curso técnico, enfrentando 50 quilômetros diários de moto sob chuva ou sol, ouviu de uma professora se seriam aquelas mãos que cuidariam dos pacientes. A resposta foi imediata: “Com essas mãos eu estou pagando a minha faculdade”.
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A trajetória de esforço foi interrompida de forma abrupta ao final de uma sexta-feira, em 29 de maio de 2026. Naquela noite, Clarice Teresinha da Silva Metz, de 43 anos, a irmã mais velha, sentiu um mal-estar repentino e um pressentimento ruim. Pouco depois, o telefone tocou. Era um conhecido avisando sobre um grave acidente de trânsito no quilômetro 173,2 da BR-471, no trevo de acesso à ERS-403, em Rio Pardo.
Conforme o Boletim de Ocorrência da Polícia Rodoviária Federal, Claudia Eduarda pilotava sua motocicleta Honda/NXR 160 Bros no sentido preferencial Rio Pardo-Santa Cruz do Sul. Por volta das 19h55, uma camionete VW/Nova Saveiro tentou cruzar a pista sem observar a presença da moto, causando uma violenta colisão transversal. A força do impacto arremessou Duda, que sofreu um traumatismo craniano gravíssimo e perdeu a consciência imediatamente.
Ao receber a notícia, Clarice diz ter ficado completamente sem reação em casa, tentando manter a calma para avisar a mãe. O desespero tomou conta enquanto a família se deslocava até o hospital local, onde Duda já havia chegado intubada pelas equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Pela gravidade do quadro neurológico, os médicos apontaram a necessidade urgente de uma UTI de alta complexidade. Surgiram vagas em Santa Maria e em Cachoeira do Sul; os colegas de bloco de Duda optaram por Cachoeira, pela proximidade. Começava ali a vigília mais dolorosa da vida daquela família.
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A decisão na UTI
No HCB, o diagnóstico inicial trazido pelo médico desabou sobre Marines, a mãe. Duda tinha apenas 1% de chance de sobrevivência. E caso esse milagre estatístico ocorresse, as sequelas seriam profundas, deixando a jovem ativa, que domava cavalos e corria pelos blocos cirúrgicos, presa a uma cama ou cadeira de rodas para sempre.
Marines, que atua como agente comunitária de saúde, conhecia os caminhos da vida e da morte. Antes mesmo que o protocolo formal fosse aberto, ela tomou a palavra diante do médico e comentou que a filha gostava de salvar vidas. Se ela não tivesse chance nenhuma, a família iria doar os órgãos dela. O médico respondeu que ainda não era o momento.
A decisão não foi centralizada. Na sala de espera, a mãe uniu o marido, Paulo, e os genros. Pelo telefone, Aldomir da Silva da Roza, de 45 anos, casado com a irmã Camila, trouxe o aval de casa, confirmando que as irmãs haviam conversado e concordado que ela deveria ser uma doadora. A unanimidade familiar nasceu do conhecimento profundo de quem era Duda. Ela, que havia escolhido a enfermagem para cuidar do avô doente, que auxiliava a comunidade e tirava o que comer da própria boca para doar a quem precisasse, não hesitaria.
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A confirmação clínica da morte encefálica ocorreu na quarta-feira. Contudo, por razões logísticas e burocráticas, a cirurgia de captação dos órgãos só pôde ser agendada para a manhã de sexta-feira. Foram 48 horas de um hiato angustiante. Na casa da família, os sobrinhos pequenos e os vizinhos sabiam apenas do acidente. No hospital, os pais e as irmãs mantiveram um pacto de silêncio protetivo, sem deixar que a notícia do falecimento vazasse antes que pudessem contar pessoalmente aos familiares. Eles consideravam isso um cuidado essencial, pois para eles Duda continuava viva enquanto o coração estivesse batendo ligado aos aparelhos.
Marines expressa uma lucidez cortante sobre o que representa o corpo na hora da despedida, defendendo que não se deve deixar os órgãos se perderem. Para ela, não faz sentido enterrar o que pode salvar alguém, pois ali no caixão ficam apenas a pele e a carne, enquanto a alma já não está presente. A mãe afirma ter certeza de que Duda gostaria de doar para viver em outra pessoa.
A vigília se estendeu até o meio-dia de sexta-feira, 5 de junho, aniversário de Duda. O avião que traria as equipes médicas de Porto Alegre atrasou devido a uma densa cerração que cobria a região. Somente às 12h14, a equipe cirúrgica iniciou o procedimento de captação, que durou duas horas e meia. O último suspiro mecânico de Duda coincidiu com o momento exato em que ela completava 28 anos de idade.
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A corrida pelo tempo e a rede de transplantes
A generosidade da família Silva acionou uma das redes de logística mais complexas da medicina moderna. Coordenada pela equipe de e-DOT do hospital de Cachoeira do Sul, a captação mobilizou três equipes externas vindas de Porto Alegre. Sete profissionais de fora somaram-se ao grupo da própria instituição.
Ao todo, houve a coleta de seis órgãos e tecidos, que beneficiaram seis pessoas que aguardavam em leitos de isolamento pela última cartada da vida. Foram transplantados o coração, o fígado, dois rins e duas córneas. Pelo critério de urgência e tempo de isquemia, todos os órgãos foram transportados por via aérea até Porto Alegre.
O coração de Duda, por exemplo, encontrou destino no peito de uma jovem de 21 anos. Clarice conforta-se sabendo que os órgãos da irmã estão salvando vidas em algum lugar e que um dia poderá abraçar essas pessoas. No entanto, o caso de Duda é raro em um oceano de recusas. O próprio hospital de Cachoeira do Sul reflete essa realidade em seus indicadores históricos. A captação de Duda foi a primeira e única doação efetivada no hospital em 2026 até o mês de junho, contra duas negativas familiares registradas no mesmo período.
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Ao analisar o histórico de seis anos fornecido pela instituição, o cenário revela o tamanho do desafio estrutural e cultural. Nos últimos seis anos, foram identificados 47 potenciais doadores com protocolos finalizados. Destes, 22 tiveram a doação efetivada (46,81% do total). Já 53,19% das potenciais doações não foram concretizadas em razão da negativa familiar, totalizando 25 recusas. Os protocolos não finalizados correspondem aos casos que não comprovaram a morte encefálica.

O raio-x do tabu no Rio Grande do Sul
Os dados oficiais da Central Estadual de Transplantes do Rio Grande do Sul, atualizados até o dia 18 de maio de 2026, dão uma dimensão exata do tamanho da fila onde a generosidade precisa desembarcar. Enquanto famílias nas UTIs hesitam em assinar a autorização, milhares de gaúchos passam os dias à espera de uma nova oportunidade de vida.
A lista de espera atualizada no Estado apresenta os seguintes dados de pacientes que aguardam por um órgão ou tecido: rim, 1.498 pessoas; córnea, 1.185 pessoas; fígado, 159 pessoas; pulmão, 101 pessoas e coração, 8 pessoas.
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A disparidade entre quem espera e quem recebe é evidente no balanço de transplantes feitos no Estado no período de 1º de janeiro a 18 de maio de 2026. Foram realizados 215 transplantes de rim, 48 de fígado, 14 de coração, 12 de pulmão e 351 de córnea. No que se refere aos tecidos captados até 11 de maio de 2026, o Estado contabilizou 52 transplantes de osso, 2 de pele, 87 de medula óssea e 36 de esclera.
Ao comparar com o ano passado, percebe-se o tamanho do desafio estrutural. Em todo 2025, o Rio Grande do Sul realizou 578 transplantes de rim, 128 de fígado, 32 de coração, 35 de pulmão, 1.022 de córnea, 578 de osso, 128 de pele e 32 de medula óssea.
O gráfico histórico aponta uma realidade ambígua: o Estado registrou em 2023 o maior número de notificações de morte encefálica da série histórica desde 1996, atingindo o pico de 838 notificações. No entanto, desse total, apenas 285 tornaram-se doadores efetivos. Os dados de captação de 2025 ajudam a esclarecer esse cenário.
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Das causas de não efetivação das doações no ano passado, a negativa familiar foi a líder absoluta, com 267 casos, seguida por contraindicação médica, com 148 casos; diagnóstico de morte encefálica não confirmado, 110 casos; paradas cardiorrespiratórias, com seis; e outros motivos técnicos, com 24 casos.
O cenário nos hospitais da região
Para além de Cachoeira do Sul, hospitais que são referências diretas para a população do Vale do Rio Pardo – o Hospital Santa Cruz (HSC) e o Hospital Ana Nery (HAN), ambos em Santa Cruz do Sul – enfrentam dilemas idênticos.
No HSC, a coordenadora da equipe de doação, enfermeira Fernanda da Cunha Salvi, revela que em 2025 a instituição fez nove buscas do tipo ativa por potenciais doadores. Destas, apenas três protocolos de morte encefálica foram confirmados. O resultado final aponta a fragilidade do processo: duas terminaram em negativa familiar e uma em contraindicação médica, fechando o ano sem doações efetivas.
Já em 2026, o hospital registrou dois protocolos confirmados, resultando em uma doação efetiva e uma negativa da família. O recorde histórico da instituição ocorreu em 2012, 2013 e 2018, com apenas quatro doações efetivas em cada período.
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Fernanda explica que a estrutura física e o perfil de atendimento influenciam as estatísticas. Aponta que a média varia de quatro a seis buscas anuais pelo fato de o HSC não ser referência em alta complexidade neurológica. Com isso, muitos pacientes recebidos nas emergências são transferidos para os hospitais de referência.
A enfermeira ressalta que a maior dificuldade do sistema permanece fixada no ambiente familiar. A aceitação durante a abordagem é um dos grandes desafios, muito por conta do desconhecimento do desejo do doador em vida ou por questões religiosas.
A equipe do HSC é composta por dois enfermeiros designados e um médico de referência para apoio técnico. Já no HAN, a enfermeira líder do e-DOT, Jaqueline Toillier, corrobora a necessidade urgente de campanhas permanentes.
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Ambas as profissionais reforçam uma estatística vital: um único doador falecido pode salvar até oito vidas por meio de órgãos sólidos e beneficiar dezenas de outras pessoas através da doação de tecidos. As profissionais também lembram que a pandemia de Covid-19 cobrou um preço alto ao sistema de transplantes, provocando uma queda expressiva nos procedimentos de captação.
No dia 19 de dezembro de 2025, o Hospital Ana Nery voltou a realizar um procedimento de captação de órgãos após um intervalo de cinco anos. A doação foi autorizada pela família de uma mulher de 55 anos, vítima de acidente vascular cerebral (AVC). A última doação de órgãos havia ocorrido em 2020, antes da pandemia.
A menina que voava as tranças
No Cemitério dos Alemães, na zona rural de Rio Pardo, o sepultamento de Claudia Eduarda da Silva reuniu mais de 2 mil pessoas da comunidade agrícola para se despedir da caçula que quebrou barreiras.
A família relembra Duda como uma pessoa radiante e cheia de vida, cujo gênio forte e doçura marcaram a todos. Para as irmãs e os pais, ela continua viva em suas memórias e ações diárias.
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A afilhada e sobrinha Clara Giovana Metz, de 17 anos, que dividia com Duda as cavalgadas e as caronas de moto, destaca que ela foi uma mulher incrível, trabalhadora e sonhadora, que superou todos os desafios climáticos e geográficos para se tornar técnica de enfermagem e viver sua liberdade.
O gesto dos Silva, ao transformarem a despedida de Duda no recomeço de seis desconhecidos, desafia diretamente a estatística fria das negativas familiares no Estado. Enquanto o sistema tenta decifrar os motivos que levam tantas famílias a recusarem a doação, a resposta no interior de Rio Pardo foi dada com o desprendimento de quem entende o valor real da vida.
Duda partiu deixando mimos guardados que ganhou dos pacientes, senhas anotadas com carinho para ajudar a mãe nas tarefas tecnológicas e uma imensa saudade na propriedade. Mas, acima de tudo, deixou um rastro de sobrevivência. Em algum leito hospitalar, alguém respira e bate o peito no compasso de um coração que se recusou a parar. Porque, como bem definiu a mensagem de homenagem da instituição que fez a captação, alguns corações nunca param de fazer o bem. O legado de Duda continua vivo.

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