Hoje está difícil, mas amanhã, em outro momento, as coisas irão melhorar. É essa perspectiva de um futuro mais promissor que, independentemente de bandeiras, fará com que milhões saiam para votar no domingo – mesmo que as visões de “paraíso” alimentadas por uns pareçam intoleráveis para outros. Pois é da democracia: alguém que não concorda com você poderá vencer.
A diferença entre os termos “utopia” e “distopia” pode ser, então, uma questão de ponto de vista. Quando o sentimento de esperança ganha dimensões coletivas e contornos de amplo projeto social, temos a utopia: vislumbre de um lugar ideal supostamente perfeito, alicerçado na imaginação. Foi o britânico Thomas More quem criou o termo, no livro que publicou em 1516.
More descreveu a Ilha de Utopia, terra de uma sociedade irretocável, justa e ordeira. E absurdamente homogênea. Seus habitantes vivem em “54 cidades espaçosas e magníficas”, onde a linguagem, as leis e os hábitos são perfeitamente idênticos. E, segundo o autor, ninguém vê problemas nisso.
Publicidade
De qualquer modo, a ideia é que a utopia concretiza as melhores potencialidades da civilização. Já a distopia é o contrário, a antítese: um mundo de pesadelo, onde todos os temores sociais tornam-se reais e são levados às últimas conseqüências. Em geral, um poder central onipotente mantém controle rígido sobre os cidadãos, e qualquer divergência é punida com prisão ou até morte. Mas e se a utopia de alguém for apenas a distopia do outro?
Por exemplo: antes de Thomas More, Platão havia imaginado sua “República”, a cidade ideal. Mas esse não era um lugar para todos. Segundo o filósofo grego, os poetas deveriam ser expulsos, por serem elementos que introduzem a desordem e a subversão na sociedade. Sob o olhar de um poeta, portanto, a República pode ser encarada como um sistema totalitário, uma distopia. Questão de ponto de vista.
Voltando a More: nas descrições que faz de sua ilha, ele destaca que “todos os escravos são submetidos a um trabalho contínuo, e trazem correntes”. Os escravos, certamente, não diriam que essa é uma sociedade perfeita.
Publicidade
Que discurso seria capaz de acomodar diversos interesses em conflito? Talvez só a democracia, sempre mais um ideal do que fato consumado. Ela não tem um modelo fechado de sociedade; em teoria, todas as visões cabem em seu horizonte, desde que regras básicas de convivência sejam aceitas. Desde que haja um elemento cada vez mais escasso: o diálogo.
Como esperança alicerçada mais na imaginação do que na realidade (a preferência hoje é por falar sozinho), infelizmente, o diálogo talvez seja nossa última utopia.
Publicidade
Quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no nosso novo canal do WhatsApp clicando aqui. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!