Entrevista 02/08/2019 20h22 Atualizado às 11h24

Alexandre Garcia: “Agora sigo apenas a minha consciência”

Após 50 anos, jornalista que entra no time de colunistas da Gazeta, vive uma nova fase de sua carreira

Em atividade há mais de 50 anos, o jornalista Alexandre Garcia é uma figura familiar para todo o Brasil, já que durante décadas atuou em grandes emissoras de TV. Nesse período, assistiu de perto às principais transformações dos meios de comunicação do último século, bem como aos acontecimentos mais importantes do país. Quem mora em Santa Cruz pode facilmente já tê-lo visto pelas ruas da cidade, com a qual guarda ligações afetivas e familiares. E ele estará ainda mais próximo a partir desta quarta-feira, quando passará a assinar uma coluna semanal na Gazeta do Sul.

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Cachoeirense, Garcia  começou ainda criança no rádio, onde seu pai trabalhava. Fez papéis infantis em radionovela e chegou a transmitir missas. Trabalhou também em emissoras de Lajeado e Porto Alegre. É formado em jornalismo pela PUC-RS, onde mais tarde lecionou. Passou por grandes redações, como as de Jornal do Brasil, TV Manchete e TV Globo, onde atuou por 31 anos e foi repórter especial, comentarista e apresentador substituto do Jornal Nacional e do Bom Dia Brasil e mantinha um programa semanal na GloboNews. Também foi subsecretário de imprensa da Presidência da República por 18 meses durante o governo de João Batista Figueiredo.

Sua experiência inclui a cobertura de três guerras (Angola, Líbano e Malvinas) e o trabalho como enviado especial no Peru, no Paraguai, na Colômbia e no Chile, e como correspondente especial na Argentina e no Uruguai. Também é autor de dois livros e faz palestras pelo Brasil. Após deixar a Globo, no fim do ano passado, começou a atuar de forma independente nas redes sociais.

Direto de Brasília, onde está radicado há 43 anos, Garcia conversou essa semana por telefone com a Gazeta. Falou sobre sua relação com Santa Cruz, sua rotina de trabalho hoje e suas impressões sobre o atual momento dos meios de comunicação e do país.

ENTREVISTA

Alexandre Garcia
Jornalista

Gazeta – Fale um pouco sobre sua relação com a região de Santa Cruz do Sul, que é bastante próxima.
Garcia
– Minha primeira relação com Santa Cruz vem de quando eu passava pela cidade e parava para almoçar. Acho que o restaurante se chamava Gambrinus, ficava ao lado do cinema, e a rodoviária era na esquina. E eu adorava também ir ao restaurante da praça (Quiosque) comer um bife a cavalo. Isso era no tempo de criança. Meus primos moravam em Santa Cruz, estudavam no Colégio Mauá. Às vezes, eu passava as férias aí. Mais recentemente, minha ligação se deu porque minha irmã mora em Santa Cruz, depois minha mãe passou a morar também, até que ela se foi, há um mês. Fora os amigos de bastante tempo que eu tenho aí. Então, muitas coisas me unem a Santa Cruz, e nada nos desune.

Gazeta – O senhor já passou por algumas das principais redações do País e hoje se dedica às redes sociais. Qual a diferença entre fazer jornalismo em um veículo tradicional e fazer jornalismo nos novos meios?
Garcia –
A diferença é uma liberdade maior. Agora sigo apenas a minha consciência. Sempre segui minha consciência, mas estava trabalhando dentro de uma empresa. Quando se está dentro de uma empresa, veste-se a camisa da empresa e não se faz nada que possa ter contrariedade lá dentro. Agora não. Se eu der uma informação errada, eu sou o responsável por tudo, não tem ninguém acima ou abaixo de mim para dividir a responsabilidade. Portanto, a responsabilidade é maior. Nesse equilíbrio, quanto mais responsabilidade se tem, mais liberdade se tem. E a recíproca também é verdadeira.

Gazeta – O ambiente das redes sociais é muito conflagrado e, não raro, histérico e até agressivo. Como o senhor lida com isso?
Garcia –
Eu gosto muito disso. Em uma televisão ou um jornal, não temos o retorno, não sabemos como está sendo recebido, se as pessoas concordam ou discordam. Na rede social, temos essa resposta. Eu diria até que a opinião contrária é até mais útil, porque faz a gente pensar. Acho isso muito produtivo.

Gazeta – Qual a importância que o jornalismo ganha em um momento em que o país está profundamente dividido em termos políticos e ideológicos?
Garcia –
Lamento que as pessoas tenham essa observação de país dividido. Isso é porque estavam acostumadas com um país de uma ideia só, um monolito. Durante muitos e muitos anos, só um lado falou e o outro ficou quieto. Agora, os lados estão falando e eu nem diria que são só dois. Isso é a multiplicidade de ideias. Acho interessante as pessoas pregarem tanto a pluralidade e, na hora em que aparecem duas ideias, já estão reclamando. O nome disso é democracia. As pessoas discordam e, nessa discordância, busca-se o melhor caminho. Parece que havia uma vontade de vivermos em um país totalitário ideologicamente, e agora estamos achando estranha a multiplicidade.

Gazeta – A eleição presidencial de 2018 foi muito pautada por uma suposta ameaça à democracia. E essa percepção vinha tanto de quem acusava o PT de proximidade com regimes autoritários de esquerda quanto de quem apontava a simpatia de Bolsonaro pelo regime militar. O senhor vê algum risco de nova ruptura democrática?
Garcia –
Nenhuma, absolutamente zero. Veja o quanto se tentou controlar a imprensa nos governos Lula e Dilma e não se conseguiu. Somos um país que já se libertou disso, que tirou dois presidentes da República na lei e na ordem e com a voz das ruas se impondo nas eleições. Não vejo por que essa síndrome. Não há por que temer regimes de esquerda, não há mais matriz para isso. E regime de direita também não dá certo. O que dá certo é o regime democrático.

Gazeta – O senhor falou em controle de imprensa. Recentemente, houve alguns episódios que causaram um certo receio, como os que envolveram os jornalistas Paulo Henrique Amorim e Raquel Sheherazade e o historiador Marco Antônio Villa. O senhor vê alguma ameaça à imprensa?
Garcia –
Não. Isso se faz desde sempre. O dono do jornal não gosta e diz para o jornalista: ‘Se você quer continuar fazendo assim, vá comprar o seu jornal. Aqui no meu jornal, não’. Sempre foi assim. Tanto em veículos pequenos e regionais como nos grandes. Se desagrada o dono do jornal ou o anunciante, o jornalista é demitido. É assim que eu sempre vi funcionar e nunca pensei que isso fosse ameaça à liberdade de imprensa. Em qualquer lugar, um empregado que contraria o dono da empresa vai acabar na rua.

Gazeta – Com o fenômeno das fake news, as pessoas passaram a desconfiar de tudo, inclusive dos meios de comunicação tradicional. Qual o risco disso?
Garcia –
As pessoas têm bons motivos para desconfiar dos ditos veículos sérios. Basta pegar o livro do Fernando Gabeira, de quando ele voltou do exílio, no qual ele conta que veio a Brasília e, em um happy hour no fim do dia com jornalistas dos principais jornais do país, eles ficavam inventando histórias e boatos. E ele se admirava quando, no dia seguinte, lia tudo aquilo nos grandes jornais. E não tinha rede social naquela época. Veja agora o caso dos índios no Amapá. Surgiu a informação de um índio morto e todo mundo noticiou que seria um ataque de garimpeiros, sendo que já se comprovou que não foi isso. Até a senhora Bachelet embarcou nessa lá da ONU. Mas isso eu vejo desde sempre. Tem a famosa história do “boimate”, uma cruza de boi com tomate, que a Veja publicou. Tem o episódio da Escola Base, em São Paulo, e não tinha rede social naquele tempo. Então, fake news é de muito tempo. Antes o nome disso era boato, barrigada, calúnia. Não é uma novidade.

Gazeta – E como o senhor vê o futuro do jornalismo? Discute-se muito se os meios impressos vão acabar e se tudo passará para o digital.
Garcia – 
O papel é forte porque foi a grande revolução que tirou o poder da Igreja Católica. A invenção de Gutemberg foi a maior do milênio. Quando surgiu a televisão, todo mundo dizia que o rádio havia acabado. E o rádio resistiu. Depois, disseram que a televisão ia acabar e o mundo digital ia passar por cima como um rolo compressor. O futuro sempre desbanca o passado, mas há coisas que são mais permanentes e vão se adaptando e sobrevivendo. Não vejo nenhuma grande ruptura, mas estou vendo que as empresas tradicionais estão se adaptando.

Gazeta – Como é a sua rotina de trabalho hoje? O senhor trabalha em casa, tem uma equipe, trabalha sozinho?
Garcia –
Tenho um assistente técnico e uma assistente administrativa. A produção jornalística é toda comigo. Escrevo semanalmente para 20 jornais. Mensalmente, para duas revistas. Diariamente falo para 300 emissoras de rádio. Também diariamente eu escrevo no Twitter para 1,5 milhão de seguidores e gravo duas vezes por dia para mais de 700 mil inscritos no YouTube. Então, trabalho o dia inteiro, pensando no que vou contar às pessoas, o que pode interessá-las, quais os fatos importantes que podem mexer com a vida delas.

Gazeta – Se tivesse que dar um único conselho para um jornalista que está iniciando na profissão, qual seria?
Garcia –
Leia muito, informe-se e não perca a história verdadeira.