A vida, muitas vezes, é injusta. Ou seria quase sempre? Lembrei disso há poucos dias. Era uma tarde de sábado. Na janela, aguardava ansioso a chegada do carteiro. Esperava uma encomenda enviada por Sedex e que deveria ter chegado um dia antes.
– Teu pacote vai chegar sábado de tarde – avisou o porteiro que mora no prédio e conhece Deus e o mundo.
Duvidei da promessa, mas por via das dúvidas, não fiquei em casa todo o sábado. Mas… pontualmente às 14 horas a campainha do porteiro eletrônico soou.
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– Encomenda pro seu Gilberto – disse o interlocutor.
Desci até o portão para pegar o objeto, agradeci e não me contive:
– Masbá… Parabéns pelo teu trabalho! Cheguei a duvidar que a entrega aconteceria hoje. Fico feliz em ver que “promessa é dívida!”.
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Sorridente, o carteiro respondeu:
– Muitíssimo obrigado! Fico muito feliz com o seu elogio!
Comentei que ele devia ouvir xingamentos como resultado da situação falimentar dos Correios, empresa que já foi orgulho dos brasileiros.
O rombo dos Correios, apenas no primeiro semestre, foi de R$ 5,5 bilhões. Em 2025, o prejuízo foi de R$ 8,5 bilhões. Mesmo assim, a direção da estatal busca empréstimos, o que seria apenas adiar uma morte anunciada.
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Quem está na linha de frente – os carteiros e os funcionários das agências – sofrem com a revolta e antipatia compreensível dos contribuintes, indignados com a péssima gestão da empresa. Costumo fazer uma analogia com as graves denúncias que se lê e ouve a partir de Brasília desde sempre.
Ao tomar conhecimento de um novo escândalo – de corrupção, roubo ou ambos – tento imaginar a vida de parentes dos envolvidos ao chegar na escola/faculdade, no trabalho, no salão de beleza ou mesmo no churrasco com amigos.
Talvez nem todos sintam vergonha dos crimes cometidos pelos familiares porque muitos se fazem de “vítimas das circunstâncias”, mas se aproveitam das vantagens obtidas de maneira ilícita em vários segmentos da vida nacional.
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Ocupar cargos de destaque são chamariscos para golpistas que são pródigos em oferecer facilidades ou pedir favores em troca de benesses ilegais.
Conheço essas tentações de perto porque trabalhei com autoridades com quem tive proximidade. “Negócios tentadores” surgem com frequência, todos com a garantia de que “tudo é lícito, sem problema e sem crime algum, só peço pra tu agilizar o meu processo”, é o “canto da sereia”.
Muitos, como eu, nascidos e criados na colônia, prezamos muito pelo nome e sobrenome que herdamos dos pais. É nosso maior – e principal – patrimônio. Resistir às tentativas de cometer crimes em troca de benefícios não nos atrai.
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Caráter se forja na família e na escola. Infelizmente é um comportamento fora de moda no Brasil. Há muito tempo.
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