Mesmo com o aumento da renda e níveis historicamente baixos do desemprego, o que significa mais dinheiro na conta ou no bolso dos brasileiros, 82% das famílias estão endividadas. O endividamento de parcela significativa da população adulta e o crescente volume de dívidas mostra que existe um desequilíbrio entre renda, padrão de vida e organização financeira.
Não se trata apenas de falta de dinheiro usado para pagar juros ou até apostas em jogos online, mas de ausência de método para administrar os recursos disponíveis. Isso fica evidenciado pela concentração de grande parte das dívidas em cobrir despesas do dia a dia. Parece que o crédito está sendo utilizado como extensão do salário ou da renda.
É claro que o consumidor não deve descartar propostas ou programas, como o Desenrola Brasil 2.0, lançado pelo governo federal, em 04/05/2026, para permitir a liquidação ou, ao menos, a amortização de dívidas, ainda mais se carregam juros elevados.
Publicidade
Mas, experiências tem mostrado que, sem orientação adequada, muitos consumidores que renegociaram suas dívidas, em poucos meses, voltam à situação de devedor, talvez até inadimplente. Quer dizer, o endividamento é retroalimentado.
Segundo a pesquisadora Katherine Henning, associada da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o problema não é o crédito em si, mas uso inadequado dele, sobretudo com a falta de planejamento e conhecimento sobre as diferentes modalidades disponíveis.
A existência de crédito e o fato das pessoas físicas poderem dispor dele para realizar seus desejos mais imediatos e planos de médio e longo prazo é positivo. A educação financeira é fundamental para reverter o quadro de endividamento. Mas, trata-se de um processo de meio ou longo prazo, de aprendizado e da gestão das contas privadas.
Publicidade
Além de causas externas, como juros elevados e aumento de preço de alguns itens, especialistas apontam “os gastos invisíveis” ou “gastos fantasmas” como vilões do equilíbrio financeiro dos brasileiros. Em um ambiente de alto endividamento, despesas aparentemente pequenas acabam impactando significativamente o orçamento, ao longo do mês.
O principal risco desses gastos está na frequência. Valores baixos, repetidos diariamente, podem gerar um valor acumulado expressivo, no fim do mês. Um gasto diário de R$ 8,00, por exemplo, soma R$ 240,00 em 30 dias e quase R$ 3 mil ao longo de um ano.
Além disso, fatores comportamentais podem influir nesse cenário. O chamado “piloto automático” faz com que o consumidor não dê bola para despesas pequenas, criando uma falsa sensação de controle financeiro.
Publicidade
A facilidade dos meios de pagamento digitais também contribui para a ocorrência de gastos invisíveis. Ferramentas como pagamento por aproximação, Pix e cartões reduzem a percepção do gasto, tonando o consumo mais rápido e menos consciente. Esse fenômeno elimina o chamado “custo cognitivo” que existia quando se pagava com dinheiro.
À medida que diminuía o dinheiro disponível, a pessoa começava a ficar mais cuidadosa e seletiva em seus gastos, o que, hoje, com as novas tecnologias de pagamento, facilmente é ignorado.
Para retomar ou iniciar o controle financeiro, especialistas recomendam fazer uma “faxina financeira”. De início, é preciso analisar os hábitos financeiros pessoais e familiares, fazendo um diagnóstico da situação; durante 30 ou 60 dias, anotar todos os desembolsos efetuados, desde o valor de um cafezinho até prestações de financiamentos de casa, apartamento, carro ou de outro item qualquer, e de compromissos financeiros assumidos para pagamento no futuro.
Publicidade
A partir desse levantamento, revisar detalhadamente cada item, quando já é possível fazer ajustes, diminuindo, substituindo ou eliminando despesas. É nos detalhes, às vezes em gastos individualmente irrisórios, que pode estar a oportunidade de economizar.
Por fim, outra recomendação importante é estabelecer limites claros no orçamento. Com organização e planejamento, estabelecendo prioridades e teto do valor máximo que se pode retirar do orçamento, sem comprometer contas já assumidas, é possível manter o equilíbrio financeiro, evitando que pequenos gastos se transformem em grandes problemas.
Publicidade
Quer receber notícias de Santa Cruz do Sul e região no seu celular? Entre no nosso novo canal do WhatsApp clicando aqui. Ainda não é assinante Gazeta? Clique aqui e faça agora!