Celebrar o aniversário de emancipação política de Santa Cruz e cultivar a memória de seu início é fundamental. Uma comunidade que não cultiva, não preserva seu passado, é como árvore que perde suas raízes – Perde sua energia interior e suas folhas são conduzidas por interesses alheios. Manter viva a alma é vital para o lugar não se apartar de suas particularidades.
Santa Cruz celebrou em 28 de setembro 148 anos de autonomia política e administrativa. Notem que, para chegar a isso, precisou menos de 30 anos desde sua fundação. Naquele tempo já a habitavam em torno de 10 mil pessoas, e a vinda de novos imigrantes não parou por aí. Algumas frestas da história permitem entrever o que fomentou o rápido desenvolvimento que possibilitou a autonomia. Volvamos um olhar para além de eventos festivos a lembrarem a data, contemplemos um tantinho o passado.
Foi em 1849, numa véspera de Natal, que começaram a chegar famílias imigrantes à recém-fundada colônia. Na sequência, mais e mais famílias vieram (em 1860 já eram 2.886 imigrantes). Em seu mundo linguístico e cultural reside o alicerce da autonomia: o valor da educação, a fé, o sentido positivo do trabalho e a união em associações. Dez anos depois do início, em 1859, já haviam superado a mais básica sobrevivência e produziam excedentes para venda. “É esta a mais rica, a mais populosa, e por conseguinte a mais importante das colônias provinciais, não obstante as dificuldades com que tem lutado” – escrevia o Presidente da Província, Espiridião Elói de Barros Pimentel, em seu relatório de 1864.
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Os imigrantes eram alfabetizados e faziam questão de garantir educação para os filhos. Em 1853 instalaram a primeira de muitas. Cito três escolas, daqueles idos tempos que continuam presentes e testemunham a contribuição irrefutável da educação: Escola Affonso Rabuske (1853: escola comunitária), Colégio Mauá (1870: Deutsche Schule) e Colégio Marista São Luís (1871: escola paroquial).
A fé cristã católica e luterana e a fé na vida conferiram-lhes energia para superarem limites – “über den eigenen Schatten springen” (literalmente: pular por cima da própria sombra). Para essa superação, também o sentido dignificante do trabalho, a presença das escolas, a união em associações foi energia motriz.
E Santa Cruz não parou mais de crescer. Em 1868, o então presidente da Província, Francisco Inácio Marcondes H. de Melo, se dizia “tomado de uma profunda admiração, ao contemplar os resultados do trabalho livre. Há pouco tempo existia aqui apenas um vazio, povoado somente por animais. Hoje, este chão se transformou e foi entregue para sempre ao homem civilizado, devido ao esforço de um povo cheio de energia e religiosidade”. Também o diretor da colônia, Evaristo Alves de Oliveira, em seu relatório de final de 1850, destaca a “moralidade e bons costumes” dos imigrantes e sua vinda “com atestado de boa conduta”.
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João Bittencourt de Menezes cita uma passagem de Hemetério J. V. da Silveira, em sua clássica obra sobre as Missões Orientais, publicada em 1909 – “no Brasil inteiro, talvez não fosse tirado dinheiro de cofres públicos e empregado com melhor êxito do que o da fundação da Colônia de Santa Cruz”, ao se referir à intensa produção dos primeiros 15 anos que resultou em mais de um milhão de contos de réis em impostos, o que superou longe os 261 mil contos de réis que haviam sido investidos pelo governo para a implantação da Colônia.
Ressalto ainda relatórios publicados no exterior por viajantes que visitaram Santa Cruz durante o período que alavancou a sua autonomia – Lallemant, Tschudi, Cantstatt e Soyaux. Preciosos testemunhos recuperados e publicados na Gazeta do Sul no último final de semana, 26 e 27 de setembro. Esses textos são fruto de valioso resgate feito pelo jornalista e escritor Romar Beling. Recomendo a leitura, porque o passado existe; quando nele mergulhamos e nele nos aprofundamos, conhecemos mais sobre as pessoas que nele viviam, suas ações, seus valores culturais. Conhecer o passado de nosso lugar de viver possibilita-nos melhor integração, mais gratidão por sermos hoje nós que o habitamos. Sentimento este que reverbera em cuidados e empenhos para que a alma de Santa Cruz continue viva e o lugar, sempre único, inconfundível.
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