Rádios ao vivo

Leia a Gazeta Digital

Publicidade

GISELE SEVERO

A vida acontece enquanto esperamos a vida começar

Foto: Banco de Imagens

Quantas vezes nos surpreendemos sussurrando para nós mesmos: “Quando isso passar, eu descanso”; “quando houver tempo, cuido de mim”; “quando tudo se resolver, enfim aproveito”? Como se a vida estivesse escondida depois de uma porta, aguardando o fim das tarefas, o silêncio dos problemas, a chegada de um dia em que pudéssemos respirar sem culpa e sem pressa.

Mas a vida não começa depois. Ela pulsa agora, até nos dias opacos, atravessados por urgências pequenas e cansaços antigos. Enquanto esperamos pelas férias, existe um café bebido às pressas, talvez diante de uma janela que mal olhamos. Enquanto aguardamos uma resposta importante, há alguém ao nosso lado tentando alcançar nossa presença. Enquanto desenhamos um futuro mais luminoso, um fim de tarde se desfaz diante de nós, único, irrepetível, sem pedir licença.

É humano desejar mudanças. Ter projetos, sonhar com outra forma de existir e trabalhar por ela também é uma maneira de cuidar de si. O sofrimento começa quando transformamos a felicidade em recompensa, como se fosse preciso merecê-la depois de cumprir uma longa lista de exigências. Primeiro emagrecer, depois vestir aquela roupa. Primeiro terminar o trabalho, depois encontrar os amigos. Primeiro resolver tudo, depois descansar. E a lista, como um horizonte que recua, sempre inventa uma nova condição.

Publicidade

Assim, podemos passar tanto tempo nos preparando para viver que deixamos de reconhecer a vida que já nos habita. O presente se torna uma sala de espera entre o que fomos e aquilo que imaginamos ser. Mas o momento ideal raramente chega inteiro. Quando uma dificuldade se desfaz, outra pode nascer; quando alcançamos uma meta, o desejo logo ergue outra montanha. Se só nos permitirmos desfrutar quando nada mais doer, talvez passemos a vida inteira batendo à porta de um futuro que nunca se abre completamente.

Isso não significa negar as dificuldades, maquiar a tristeza ou exigir de nós uma alegria impossível. Há dias em que sobreviver já é uma forma silenciosa de coragem. Há cansaços que pedem cuidado, limites, colo e ajuda. Ainda assim, pequenos instantes podem nos devolver a nós mesmos: uma conversa que aquece, uma música que encontra um lugar secreto, o abraço de alguém querido, alguns minutos de silêncio em que não precisamos provar nada.

Talvez não seja necessário esperar por uma grande ocasião para tocar aquilo que nos alegra. Podemos começar por gestos modestos, quase invisíveis: marcar um encontro, fazer uma pausa sem pedir desculpas, caminhar sem transformar o caminho em tarefa, dizer a alguém que sentimos saudade. Não são respostas para todos os problemas. São fios delicados que nos mantêm ligados à própria existência enquanto ela se reorganiza.

Publicidade

O futuro merece nossos planos, mas não precisa receber todo o nosso entusiasmo. O passado merece memória, mas não precisa conduzir cada passo. Entre os dois há esse instante imperfeito, por vezes difícil, mas ainda aberto, respirando diante de nós. Um lugar onde a vida não está pronta, mas já está acontecendo.

A vida não começa quando finalmente terminamos tudo. Ela se move enquanto trabalhamos, esperamos, mudamos de ideia, perdemos o rumo e tentamos outra vez. Talvez cuidar da saúde mental seja também retirar os dias comuns da sala de espera e escutar o que eles dizem em voz baixa: mesmo sem estar tudo pronto, mesmo sem sermos quem imaginamos, já estamos vivendo.

Publicidade

Aviso de cookies

Nós utilizamos cookies e outras tecnologias semelhantes para melhorar sua experiência em nossos serviços, personalizar publicidade e recomendar conteúdos de seu interesse. Para saber mais, consulte a nossa Política de Privacidade.