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Conheça Gabriella Meindrad, uma protagonista na cultura gaúcha

Gabriella Meindrad, secretária adjunta de Cultura do Estado e presidente da Comissão Estadual dos Festejos Farroupilhas | Sedac/Divulgação

Erico Verissimo deu voz a Bibiana Cambará, na saga O Tempo e o Vento. Mas, apesar da força dela e de outras mulheres daquela obra, que se confunde com a história do Rio Grande do Sul, a personagem não cansava de repetir: “[…] o destino das mulheres da família era fiar, chorar e esperar”. Em 1949, quando Verissimo lançou o primeiro livro da trilogia, essa máxima poderia fazer mais sentido do que faz atualmente. Infelizmente, porém, a submissão feminina ainda é uma realidade, principalmente em locais onde a cultura insiste em atribuir às mulheres esse lugar de espera e coadjuvância.

A boa notícia é que na história, sistematicamente, surgem personalidades determinadas a encarar o sistema – e a assumir a responsabilidade de mudá-lo. Anita Garibaldi, que lutou lado a lado com os farroupilhas; Luciana de Abreu, uma professora feminista que discursava sobre direitos iguais em Porto Alegre, e foi a primeira mulher a dar nome a uma rua na Capital; Gilda Galeazzi, primeira mulher a assumir a presidência do MTG, em 2020 – mais de meio século depois da fundação do movimento.

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Exemplos de pioneirismo não faltam. E, como diz a primeira árbitra assistente a atuar em uma final de Campeonato Gaúcho, a santa-cruzense Luiza Reis, o importante é abrir portas. A bacharela em Direito Gabriella Meindrad, aos 35 anos, está derrubando as barreiras que ainda restam no tradicionalismo gaúcho, erguidas para segregar homens e mulheres. Desde 2020, ela ocupa o cargo de secretária adjunta da Cultura do Rio Grande do Sul e, neste ano, alcançou um feito inédito: é a primeira mulher a presidir a Comissão Estadual dos Festejos Farroupilhas.


Gabriella com a mãe, Leoni dos Santos, em 2019, quando foi homenageada pela 10ª RT | Foto: Arquivo Pessoal

O tradicionalismo faz parte da vida de Gabriella desde a infância. Ela cresceu vendo a mãe costurar vestidos de prenda e acompanhando os irmãos nos grupos de dança no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Cancela da Fronteira, de São Vicente do Sul, terra natal dela. No entanto, a primeira vez que colocou um vestido de prenda – feito pela mãe, como sempre sonhou – foi em 2019, quando recebeu uma homenagem da 10ª Região Tradicionalista (RT). A honraria veio devido à atuação de Gabriella dentro do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) como peão regional antes do processo de transição de gênero. Sim, Gabriella é uma mulher trans, a primeira a ser reconhecida e homenageada dentro do MTG.

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A visibilidade de tamanha vivência da cultura gaúcha lhe rendeu frutos que são colhidos até hoje. Servidora pública no município de São Vicente do Sul desde 2018, no ano seguinte foi convidada a assumir a Assessoria de Diversidade da Secretaria de Cultura do Estado, cargo em que permaneceu até 2020. Naquele ano, Gabriella assumiu a função de secretária adjunta da Cultura do Rio Grande do Sul, sendo responsável, entre outros projetos e iniciativas, pela implementação da Lei Aldir Blanc no território gaúcho.

E, em 2022, ao alcançar o posto de presidente da Comissão Estadual dos Festejos Farroupilhas, assume o protagonismo que as mulheres merecem. Esse feito é inédito para o público feminino, pois, em anos anteriores, a função máxima alcançada por uma mulher havia sido a vice-presidência. “É uma representatividade muito importante, porque se trata da maior festa popular do Estado, que alcança todos os municípios, todos os gaúchos”, avalia. Neste ano, Gabriella acredita que os Festejos Farroupilhas serão ainda mais especiais, por se tratar da retomada dos eventos em sua forma original: presencial, com público, bailes e outras atividades tradicionais.

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A missão de Gabriella à frente da comissão será organizar e divulgar as ações culturais e festivas relacionadas ao 20 de setembro, data em que se comemora o Dia do Gaúcho. O cantor, compositor, gaiteiro e violinista Adair de Freitas será o patrono dos festejos, que terão início no dia 12 de agosto, com o acendimento da Chama Crioula, em Canguçu. O tema será Etnias do Gaúcho: Rio Grande, Terra de Muitas Terras. “Ter esse protagonismo me honra muito. É um desafio pessoal e que vai encerrar um ciclo muito rico para a cultura do Estado”, destaca.

O florescer de Gabriella dentro do tradicionalismo

Participando da invernada mirim do CTG Cancela da Fronteira desde os 6 anos, Gabriella foi eleita 2º peão regional e, durante toda a gestão, desenvolveu o projeto MTG Vai à Escola. A iniciativa consistia em levar a cultura gaúcha – poesia, dança, música, culinária, história – para as salas de aula de turmas de 1º a 5º ano da cidade de São Vicente do Sul. Ela desenvolveu esse trabalho por cerca de 10 anos, até 2005.

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No entanto, o ingresso no mercado de trabalho e na universidade fizeram com que ela se afastasse do movimento tradicionalista. Em 2011, quando tinha 25 anos, também iniciou a transição. O retorno ao mundo dos CTGs foi triunfal. Em 2019, durante a etapa regional da Ciranda de Prendas da 10ª RT, 57 peões e prendas regionais que tiveram gestão em anos anteriores foram homenageados. Foi nessa ocasião que, pela primeira vez, Gabriella foi chamada de prenda.

Com as soberanas da 16ª Fenachim, em Venâncio Aires | Foto: Sedac/Divulgação

A transexualidade, apesar de ser um desafio, não foi sinônimo de violência direta, física ou verbal, para Gabriella. “Desde que eu recebi a homenagem, convivo com o discurso de ódio nas redes sociais, porque, nesse espaço, as pessoas se acham invisíveis. Mas, no meu cotidiano, talvez pelo cargo que eu ocupo, não sou vítima direta de violência”, observa. No movimento tradicionalista, em especial, ela acredita que está sendo construído um ambiente mais acolhedor do que excludente, principalmente entre as novas gerações. “No CTG se criam valores de amizade, compaixão, desenvolvimento pessoal e coletivo”, pontua.

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Atualmente como presidente da Comissão dos Festejos Farroupilhas, Gabriella acredita que assumir essa função dentro do tradicionalismo oportuniza aos gaúchos a chance de transformar o pensamento em relação a minorias, além de criar um espaço para a discussão e a aceitação da diversidade. “Ainda temos muito a trabalhar para que a invisibilidade da mulher termine de vez, mas já podemos ver que as próprias mulheres não aceitam mais os limites que o machismo impõe”, afirma.

Valores de vida aplicados no setor público

Gabriella Meindrad acredita que é importante todas as pessoas sentirem-se representadas no âmbito cultural. “Minha prioridade dentro da Secretaria de Cultura sempre foi propor ações culturais, artísticas e sensibilizadoras, voltadas às minorias – LGBTs, deficientes, mulheres, negros, indígenas. Queria olhar para o todo, valorizando cada um”, explica.

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A pandemia de coronavírus, no entanto, atrapalhou a agenda e os artistas. Em virtude disso, a Lei Aldir Blanc foi criada para socorrer o setor. Gerir esses recursos foi uma das principais responsabilidades de Gabriella ao longo de toda a gestão. A prioridade dela nesse contexto foi fazer os valores chegarem a todos os municípios, promovendo a interiorização da cultura.

Na abertura da 36ª Oktoberfest, em Santa Cruz do Sul | Foto: Sedac/Divulgação

Outra conquista importante do governo estadual, segundo ela, foi a implantação de banheiros unissex no Centro Administrativo Fernando Ferrari, em 2021. “Alguém como eu, num cargo como o que ocupo, é muito representativo. A expectativa de vida de pessoas trans é de 35 anos, o índice de evasão escolar entre esse público é imenso, são expulsas de casa, a prostituição e a marginalização são consequência de tudo isso. Essa oportunidade que tenho é um sopro de esperança”, afirma.

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Bacharela em Direito, a escolha pela profissão já foi pensada por Gabriella pela necessidade de ter mais mulheres – trans ou não – conquistando direitos e visibilidade. “Acessar a educação é uma forma de mostrar nosso poder e potencial”, ressalta.

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