Entrevista 02/01/2020 10h16 Atualizado às 15h39

O jeito brasileiro de jogar do russo Angolano

Destaque no futebol amador, Helder Martins sonha em vestir a camisa dos grandes clubes da cidade que o abraçou

Um dos principais jogadores do futebol amador nos últimos anos, Helder Nilton Júlio Martins fechou bem o seu 2019. Centroavante de ofício, foi o destaque do São Martinho na final do Campeonato Municipal, que teve o seu desfecho no último domingo, 29 de dezembro. Ele marcou o gol do título e recebeu o troféu de melhor da partida, além de ter sido o campeão. Com um sorriso tipicamente brasileiro, o jogador de 29 anos tem o apelido de Angolano – por sua descendência familiar –, contudo, é russo nascido em Donetsky (hoje Ucrânia). Há cerca de cinco anos, adotou Santa Cruz do Sul como sua cidade. “Escolhi o Brasil para viver. Me considero um brasileiro e gostei demais daqui de Santa Cruz. É uma cidade calma, com muitas oportunidades e pessoas que acolhem bem”, comentou.

Angolano recebeu a equipe da Gazeta do Sul no primeiro dia de 2020. Antes de falar da carreira como jogador e do que pensa para o futuro, foi logo apresentando a sogra, Suzana Nascimento, que chama de mãe. “Ele tem esse jeito feliz, de bem com a vida, e assim ele é com todo mundo e sempre”, disse Suzana. “Eles são a minha família. Estou sempre com a minha namorada Débora, o irmão dela, o Léo, a mãe Suzana e o pai Nílson”, explica o atleta em bom português, língua oficial de Angola, embora seja também fluente em russo, onde morou até os 16 anos. 

Ajax quis. Só faltou combinar com a mãe.

Na casa de sua família santa-cruzense, Angolano mostrou uma coleção de troféus e medalhas conquistados nos campeonatos da região. A sua base no futebol, no entanto, veio do Leste Europeu. “Nasci na Rússia em uma época que minha mãe, que é de Angola, foi cursar medicina lá”, conta. O canhoto de 1,86 metro de altura admite que não existem mais tantos centroavantes como antigamente. “Tenho como referência o Ronaldo Fenômeno e o Samuel Eto’o. Da atualidade, gosto muito do Lukaku, que lembra o Adriano Imperador, sendo centroavante mais raiz, de força e inteligência.” Na Rússia, Helder Martins fez toda a base na equipe do Lokomotiv Moscou.

Aos 10 anos, recebeu uma chance de ouro para integrar a base do Ajax, da Holanda, uma geração que se tornou promissora anos mais tarde. A mãe Irondina, no entanto, não autorizou sua ida aos Países Baixos. “Se eu fosse maior de idade, eu iria”, afirma Angolano, com um sorriso no rosto, uma das suas marcas registradas. Um ano após a mãe ter retornado para Angola, Helder também foi morar no país africano. Lá passou a atuar pelo Bravos do Maquis, time da primeira divisão local. Aos 24 anos veio pelo primeira vez ao Brasil. Após uma rápida passagem por São Paulo, chegou a Santa Cruz por intermédio da mãe, que fazia residência na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e conheceu a cidade por meio de amigos da família ligados à medicina. Acabou pegando gosto pela cidade.
 

Foto: Lula HelferJogador mantém a forma treinando no Estádio Municipal, no Parque da Oktoberfest
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O sonho de atuar pelos grandes

Angolano passou no vestibular da Unisc para Ciências Econômicas em 2015 e começou a se dedicar à vida acadêmica. Foi quando o talento no futebol, novamente, foi observado. “Eu não procurei times quando cheguei em Santa Cruz. Comecei a jogar em quadras com horário, sem disputar competições. Aí, em 2016, o América me convidou para jogar o Campeonato Regional.” Foi a porta de entrada no futebol da região. No mesmo ano, ele foi artilheiro da Copa Cidade atuando pelo Juventus. Em 2017 faturou o título da mesma competição pelo Boca Junior, vencendo também o Municipal e o campeonato da Aliança. “Em 2018 e 2019, fui vice-campeão da Copa Cidade. Neste último ano perdi a final também da Aslivata, campeonato do Vale do Taquari.” O esforço para buscar uma taça em 2019 deu resultado no Municipal, com o São Martinho.

“Estava quente e o gramado duro, em que a bola picava muito, mas consegui marcar o gol e buscar esse título.” Com 29 anos e pés no chão, Angolano admite que é mais difícil nessa idade chegar ao futebol profissional e aos grandes clubes brasileiros. Contudo, mantém viva a vontade de jogar profissionalmente nos times da região. “Sonho jogar nos grandes clubes da nossa cidade e região. Para isso me preparo com muito treinamento funcional, academia e prática”, conta, revelando que já esteve próximo de equipes da cidade. “Ainda não aconteceu, mas tem tempo.”