FALANDO EM DINHEIRO 15/01/2021 20h07

A inflação real de cada um

O encarecimento é sentido de forma diferente pelas famílias, dependendo da proporção do orçamento que cada uma destina para comprar diferentes produtos

Causou um quê de incredulidade e até uma certa revolta quando os telejornais anunciaram, na noite do dia 12, o índice da inflação oficial do Brasil, no ano de 2020: 4,52%! O índice é medido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os telejornais ainda ressaltavam que, embora o número ficasse acima do centro da meta de 4% para o ano, ainda estava dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.

Uma das principais reclamações dos brasileiros é, justamente, com relação aos índices oficiais da inflação. Como a inflação do ano foi de apenas 4,52% se toda a semana os produtos estão mais caros e há necessidade de diminuir itens e quantidades das listas de compras de produtos básicos?

Como justificar um índice tão baixo se os preços que mais aumentaram foram os de alimentos, como o óleo de soja (103,79%), arroz (76,01%), leite longa vida (26,93%, frutas (25,40%), carnes (17,97%), batata inglesa (67,27%) e o tomate (52,76%), além de outros, como habitação (5,25%), energia elétrica (9,14%)? Em conjunto, alimentação e bebidas, habitação e artigos de residência responderam por quase 84% da inflação de 2020.

A resposta para essa diferença entre o índice oficial e a inflação real que cada um sente em seu bolso é muito simples, embora questionável. O Índice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) avalia a variação de preços para as famílias de 1 até 40 salários mínimos, levando em conta o preço de 377 itens, divididos em 9 grupos, com cada grupo tendo um peso no cálculo do índice geral. A forte alta de alguns produtos, principalmente de alimentação, não se manifestou no índice oficial porque houve quedas em outros itens da cesta que compõem o IPCA, como a redução no valor das passagens aéreas, hospedagem dos hotéis e outros itens.

O aumento de preços, principalmente nos mercados, começou a aparecer no mês de setembro, restrito ainda a itens da alimentação, sob a justificativa de maior demanda, por causa dos auxílios emergenciais do governo federal e da alta do dólar. No mês de dezembro, entretanto, ocorreu uma alta generalizada, o que os economistas chamam de índice de difusão, sendo que 7 em cada 10 aumentaram de preço.

O ponto importante é que esse encarecimento é sentido de forma diferente pelas famílias, dependendo da proporção do orçamento que cada uma destina para comprar diferentes produtos, com maior ou menor aumento. O problema é que os itens que sofreram altas exorbitantes são justamente os de alimentação, que representa os maiores gastos para as famílias mais pobres. Essas famílias usam por volta de 30% de seus ganhos para alimentos.

A situação é pior ainda para os trabalhadores informais que não tem salário fixo, por mínimo que seja. Uma faxineira, por exemplo, que já há algum tempo cobrava um valor X pela diária, hoje, mesmo com o aumento de preço dos gêneros de primeira necessidade não consegue repassar esse custo, quando não é obrigada a reduzir o valor de seu trabalho sob pena de perder o cliente.

Por vivermos no automático, simplesmente recebendo o salário ou a renda e pagando contas, esquecemos ou não nos preocupamos em rever nossos gastos. Não se trata de só pesquisar preços, anotar os valores gastos, mas de analisar como nos comportamos ao fazermos compras. É isso que pretende a educação financeira: ir além das finanças pessoais que se restringe a questões técnicas e começar a observar o comportamento.

Muitos especialistas recomendam aumentar ou diversificar as fontes de renda, desenvolvendo alguma atividade extra com o objetivo de aumentar as receitas. É uma boa ideia, mas que pode encontrar dificuldades para ser realizada, ainda mais em tempos de crise, como o atual, em que as oportunidades de trabalho são poucas.

Mas o que pode ser feito imediatamente para aumentar o poder de compra é examinar cada item de gastos, identificando a inflação invisível que ele carrega e o que é desperdiçado em excessos de água, luz, mercado, roupas, sapatos, etc. Uma das experiências propostas é passar um ano inteiro sem comprar ou gastar em nada que não seja essencial, como roupas, sapatos, bolsas. Muitas pessoas já fizeram isso e, no fim de um ano, constataram que só com o que tinham em casa – alguns itens ainda com a etiqueta de compra – conseguiram sobreviver tranquilamente.

Todo mundo gosta de comprar e pode cometer algum excesso, inclusive quem lida com a educação financeira. Afinal, somos humanos e o ato de comprar pode ser acionado antes por motivos emocionais do que racionais. Alguns fazem da compra uma verdadeira terapia para sentir-se bem.

Mas a pandemia do coronavírus acendeu uma luz amarela: a maioria dos consumidores brasileiros – 88.4% – pretende comprar menos por impulso, pensando mais no que vai gastar. Aquela história de gastar por gastar parece que, pelo menos por enquanto, ficou no passado.

Nesse contexto, Reinaldo Domingos, criador da DSOP Educação Financeira e pós-doctor em educação financeira, sugere cinco passos:
1º) realizar uma reunião familiar para levantar os desejos e objetivos individuais e coletivos:
 - apurar o custo de cada um;
 - em quanto tempo querem realizá-los;
 - quanto podem guardar mensalmente para a finalidade;
 - de onde vão buscar o dinheiro para realizar esses objetivos;
2º) efetuar um diagnóstico da situação financeira atual: apurar o custo total, identificando o valor gasto em cada item que, se for o caso, poderia ser substituído ou eliminado;
3º) ter e cumprir um orçamento, priorizando sonhos e propósitos;
4º) poupar: guardar recursos para a realização dos sonhos e propósitos;
5º) investir: deixar o dinheiro poupado em alguma aplicação financeira.

LEIA OUTRAS COLUNAS DE FRANCISCO TELOEKEN