Santa Cruz 19/03/2019 23h52 Atualizado às 06h25

Ação de ladrões provoca medo nos moradores do Bairro Goiás

Casas abandonadas são apontadas como esconderijo de usuários de drogas e assaltantes. Assustada, comunidade se mobiliza pelo Whats

O assalto a uma aposentada de 60 anos em plena manhã, nessa terça-feira na Rua Tiradentes, acende o alerta para o clima de insegurança enfrentado pelos moradores do Bairro Goiás, em Santa Cruz do Sul. A mulher, que prefere não ter a identidade divulgada, chegava na casa da filha, por volta das 8h30, quando foi surpreendida por um trio de criminosos encapuzados. A vítima teve a bolsa levada pelos rapazes, que ainda a ameaçaram: “Não reage, que nós estamos entre três”. Mais tarde, a mulher conseguiu recuperar a bolsa e a carteira com os documentos, que foram abandonados na rua.

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“A gente vê isso todo dia, mas nunca acha que vai acontecer conosco. É uma pena que a nossa sociedade esteja desse jeito. Em um horário de ir para a escola, para o trabalho, surgem esses jovens assaltando, se aproveitando da situação de uma pessoa mais velha”, comentou. Na sexta-feira da semana passada outro episódio ocorrido no bairro, também à luz do dia, chamou a atenção. Por volta das 15 horas, o mercado Estrela, na Rua Santo Antônio, foi alvo de assaltantes, presos pela Brigada Militar meia hora após o crime. Já no final de fevereiro, uma mulher teve o veículo levado por criminosos que a puxaram para fora do carro após ela estacionar na Rua Rodrigues Alves. Os policiais conseguiram recuperar o automóvel rastreando o celular da vítima, que também havia sido roubado.

Casos como esses levaram os moradores do Goiás a procurar soluções. Através do WhatsApp, em um grupo criado especialmente para tratar de segurança, cerca de cem pessoas têm trocado informações sobre o que acontece na vizinhança. Jeferson Peres da Silva, que teve a casa arrombada três vezes, é o coordenador do grupo e afirma que crimes já foram evitados a partir dessa mobilização.

“Inclusive um arrombamento, na casa de uma senhora que estava sozinha à noite, enquanto o marido trabalhava. Ela avisou no grupo, e nós fomos entre seis até a casa dela. Os bandidos fugiram.” Em outra ocasião, os moradores flagraram um homem tentando invadir uma residência e o abordaram. “Ele desistiu do arrombamento, de tarde, e ficou até a noite vagando pelo bairro. A gente foi se avisando no grupo sobre a localização dele e fomos atrás. Perguntamos o que ele queria e pedimos que fosse embora. Ele nunca mais apareceu.”

Foto: Bruno Pedry

 


Conforme Silva, a existência de pelo menos três casas abandonadas contribui para a insegurança. Um dos imóveis, na esquina das ruas Fernando Abott e Ruy Barbosa, tem abrigado usuários de drogas que, segundo os moradores, estariam envolvidos em alguns furtos. Na tarde dessa terça-feira a Gazeta do Sul esteve na moradia, que fica ao lado de uma escola de educação infantil. A janela da sala da diretora, que faz divisa com a residência, precisou receber uma chapa de alumínio, pois era constantemente invadida, inclusive durante o dia. Já a casa onde os usuários ficam é tomada por lixo e matagais. Nos cômodos em ruínas há colchões, roupas, bitucas de cigarro e dejetos humanos por toda parte. As outras casas estão nas ruas Carlos Trein e Santo Antônio.

Foto: Bruno Pedry

 

O que diz a Prefeitura

A respeito das casas abandonadas, a Secretaria Municipal de Comunicação informou que diversas notificações já foram feitas. O principal problema não seriam as residências em si, mas a vegetação que toma conta dos pátios e calçadas. A pasta ressalta, no entanto, que existe uma grande dificuldade para notificar os responsáveis, pois a maioria dos proprietários são investidores que não têm cadastro atualizado na Prefeitura. Após o período de notificação, esses proprietários podem ser multados e entram em dívida ativa. O valor da punição varia de acordo com o terreno e vai de R$ 315,66 a R$ 3.156. Somente este ano, conforme a secretaria, o Município já emitiu aproximadamente 50 multas envolvendo essas situações.

Foto: Bruno Pedry
Foto: Bruno Pedry
Foto: Bruno Pedry

 

Polícia Civil investiga os casos, mas faltam provas

Titular da 1ª Delegacia de Polícia, a delegada Ana Luísa Aita Pippi afirma que a Polícia Civil tem conhecimento sobre o uso das casas abandonadas por andarilhos e usuários de drogas, mas explica que não pode apurar esses casos, pois trata-se de questões de ordem cível. De acordo com ela, não é possível atribuir a autoria de todos os crimes ocorridos no Goiás aos ocupantes desses imóveis. “Pelos furtos em casa até é possível, mas os assaltos são praticados por outros perfis de criminosos”, detalha.

A delegada ressalta que é preciso evitar generalizações. “Há vários assaltantes atuando hoje, na cidade toda e em diversos bairros. No caso dos furtos, também não podemos fazer afirmações. Podem ser quaisquer usuários de drogas, não necessariamente os que estejam nas casas.” Os crimes estão sendo investigados, mas os furtos são mais desafiadores. “Fica bem difícil quando não há testemunhas, imagens de câmeras ou flagrante. Muitas vezes sabemos quem são os autores, mas precisamos provar.”

Vereador Hermany acordou com ladrão dentro do quarto

Morador do Bairro Goiás, o vereador Edmar Hermany também já esteve à mercê de ladrões. Ele se encontrava sozinho em casa, em uma madrugada de sábado, há cerca de 20 dias, quando a residência foi invadida. “A Helena (Hermany) tinha ido para a praia e eu iria no dia seguinte. Me acordei com o clique da luz, mas pensei que fosse a empregada fazendo café. Virei de lado e vi que tinha alguém parado na minha frente”, relatou.

A reação dele foi fingir que ainda estava dormindo, enquanto o ladrão fazia a limpa. Ele furtou um celular, joias e os lucros da venda de mel daquele dia – Hermany também é apicultor. “Me passou na cabeça todo o filme da minha vida, dos meus netos, da mulher. A sensação era de que a qualquer momento eu podia levar uma coronhada, uma facada ou um tiro. No fim, não reagir é a melhor coisa, porque a vida sempre vale mais.”

A invasão aconteceu por volta das 5 horas, mas o vereador só deixou o quarto às 6h30, quando não ouviu mais barulho. Ao checar a casa, descobriu que os criminosos haviam entortado uma barra de ferro, erguendo a cerca elétrica, e depois arrombaram uma janela.

Participante ativo do grupo do bairro, Hermany afirma que os moradores estão fazendo sua parte. “Temos gente olhando em todos os cantos do bairro. Se algum suspeito aparece, é foto e chamar a Brigada. Em 2017 eu fiz uma reunião parecida com os moradores, na Igreja São José, e tivemos um retorno excelente dos órgãos de segurança. Não vou parar dessa vez, até que sejamos atendidos de novo.”

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Queixas foram repassadas à Brigada Militar

Na semana passada, os moradores que participam do grupo de WhatsApp do bairro tiveram uma reunião com representantes da segurança pública e do Município. O espaço para o encontro foi cedido pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fumo e Alimentação de Santa Cruz (Stifa). “Nós pedimos mais policiamento à Guarda Municipal e à Brigada Militar, e entregamos o projeto de uma Rede de Vizinhos Monitorada, além de pedirmos um policial comunitário para ficar em contato com moradores e comerciantes”, detalhou o coordenador do grupo, Jeferson Peres da Silva.

A proposta da rede de vizinhos é semelhante ao que já acontece a partir do WhatsApp, mas com a presença de um policial que ficaria a par das situações. “O policial comunitário poderia ficar na Escola Goiás, onde há uma guarita com banheiro e ar-condicionado.” Uma reunião com a BM, em que deve ser informada a possibilidade de atender ou não às demandas dos moradores, está marcada para esta quinta-feira. Silva afirma, no entanto, que o policiamento ostensivo no bairro já aumentou.

Os vereadores Edmar Hermany (PP) e Bruno Faller (PDT) – membro da Comissão de Segurança da Câmara – participaram do último encontro, assim como o secretário de Meio Ambiente, Raul Fritsch. “Pedi que as pessoas que já haviam sido assaltadas levantassem a mão. Havia cerca de cem pessoas na reunião e as únicas que não levantaram o braço foram os representantes do poder público e da segurança”, conta Hermany.