Santa Cruz 17/06/2019 23h35 Atualizado às 06h27

Bingo interditado chama atenção pela precariedade e riscos no local

Estabelecimento clandestino na Rua Venâncio Aires permitia fumantes e não tinha saída de emergência

Sem saída de emergência e com passe livre para fumantes, o bingo interditado na tarde dessa segunda-feira, 17, no Centro de Santa Cruz do Sul, tinha todos os elementos necessários para uma tragédia. O estabelecimento ilegal, que ficava na Rua Venâncio Aires, foi fechado pela Brigada Militar por volta das 15h15, após pelo menos duas semanas de investigação. No momento da abordagem, 58 pessoas estavam no local, que tinha apenas uma porta, fios de energia à mostra e boa parte da estrutura em madeira. Todos os jogadores foram revistados e uma mulher, que não teve o nome divulgado, foi identificada como funcionária da casa.

LEIA MAIS: Brigada Militar fecha bingo no Centro de Santa Cruz

Foto: Assessoria de Comunicação do 23º BPM Fumava-se mesmo em lugar fechado
Fumava-se mesmo em lugar fechado

 

Ao todo, conforme a BM, o bingo teria 40 empregados. O proprietário, no entanto, não foi localizado. “Essa é uma das nossas dificuldades. Os estabelecimentos ilegais vão migrando porque é lucrativo. Infelizmente as pessoas vêm, muitas vezes acreditando que vão arriscar a sorte, mas na verdade estão aqui para perder. As máquinas estão programadas para ganhar para a casa”, comentou o subcomandante do 23º Batalhão de Polícia Militar (BPM), major Fábio Azevedo. De acordo com ele, além dos prejuízos causados aos frequentadores e do fato de se tratar de uma contravenção penal, em muitos casos esses estabelecimentos também estão envolvidos com outros crimes, como tráfico de drogas, porte de arma, exploração de pessoas – em maioria idosas – e até presença de foragidos.

Na tarde dessa segunda-feira, 95% dos jogadores presentes eram idosos. “Eventualmente nos questionam por que estamos fechando bingos ao invés de atuar nas ruas ou ir atrás de traficantes, por exemplo, mas não enxergam todos os problemas que esses jogos causam na vida das pessoas”, comentou o capitão Rafael Menezes, que comanda a 1ª e 2ª companhias do 23º BPM. Conforme ele, há idosos que chegam a perder toda a aposentadoria para as máquinas e, para justificar a falta do dinheiro, registram faltas ocorrências de furto. “E isso vai gerando problemas familiares também. É algo que afeta muito a vida de quem joga, sem falar do ambiente perigoso onde esse jogo acontecia, colocando a segurança de todas essas pessoas em risco.”

Foto: Assessoria de Comunicação do 23º BPM Sinal de perigo: fiação exposta na parede
Sinal de perigo: fiação exposta na parede

 

O Corpo de Bombeiros também participou da ação e interditou o imóvel. De acordo com o soldado Tiárli Ferreira, um incêndio no estabelecimento poderia ser fatal. “Não tem a mínima adequação correta. É difícil de prever isso, mas pela estrutura é muito provável que as pessoas que estivessem mais para o fundo ficariam presas em uma situação de incêndio”, comentou. O local foi interditado também por apresentar risco à vida ou à integridade física dos usuários. Foram confiscados cerca de 60 computadores, além de pendrives, cartões de memórias e outras peças dos maquinários. Parte desse material deve ser doada para entidades, mas a maioria deve ser destruída. O destino desses objetos vai ser decidido pelo Poder Judiciário.

Contabilidade

  • O bingo foi o segundo fechado em menos de uma semana
  • 58 pessoas estavam no local na tarde dessa segunda-feira
  • 60 computadores foram apreendidos
  • 40 funcionários fariam parte do esquema
  • Pendrives, cartões de memórias e peças também foram apreendidos


Clima tenso
O clima entre funcionários, jogadores e a polícia ficou tenso durante alguns momentos da operação dessa segunda. Conforme funcionários, uma das jogadoras, que teria entre 35 e 37 anos e sofreria de bipolaridade, pedia para deixar o local quando teria sido empurrada por um policial. Diante da atitude, a mulher teria avançado contra o PM e acabou algemada, o que revoltou os presentes. Ela chegou a ser levada para atendimento médico pelo Samu.

Conforme a BM, no entanto, a mulher teria sido contida após avançar contra um dos policiais. Aos policiais, a mãe dela teria contado que a filha sofria de bipolaridade e esquizofrenia, e não estaria medicada. Durante a ação, os funcionários pediram que os PMs fiscalizassem outros locais onde há atividade ilegal e foram orientados a registrar denúncias formais. O fechamento do bingo, segundo a BM, ocorreu após denúncia anônima.

“Para mim era o melhor da cidade”, diz frequentador

Um homem de 52 anos, que preferiu não se identificar, estava apostando há cerca de 30 minutos quando os PMs chegaram ao bingo. Trabalhador da construção civil, ele conta que joga nesse tipo de estabelecimento desde 1997 e há quatro anos teria conhecido o local que foi fechado nessa segunda-feira. “Para mim era o melhor da cidade, tinha o melhor ambiente. Eu vinha mais no final de semana, mas hoje eu tive que vir em uma oficina aqui perto e aproveitei para dar uma passada”, comentou. O jogador afirmou que conhecia mais dois bingos no município, dentre eles um que ficava na Rua Florianópolis, no Bairro Faxinal Menino Deus, fechado pela BM na última quarta-feira. O outro ficaria na zona central.

Para o homem, que costumava frequentar o lugar com a filha, o genro e uma irmã, o bingo é uma distração. “Eu prefiro jogar do que ficar bebendo em boteco. A gente joga para ganhar, né? Mas eu quando perco uns ‘pilinhas’ já me mando embora”, contou. De acordo com ele, as apostas podiam ser feitas a R$ 0,50 e R$ 1,00, mas também havia rodadas grátis. Há algumas semanas, segundo ele, chegou a ganhar R$ 100,00 e nunca perdeu mais do que R$ 10,00 em um dia.


MAIS LIDAS