Novo governador 03/11/2018 00h52 Atualizado às 08h23

Por que, afinal, Eduardo Leite é tão popular

Gazeta foi a Pelotas para entender o que levou o novo governador a vencer na cidade natal com esmagadores 90% dos votos

Além de se tornar o governador mais jovem do Rio Grande do Sul desde a redemocratização, Eduardo Leite (PSDB) obteve uma façanha histórica ao ser eleito no último domingo: recebeu nada menos que 90,3% dos votos válidos em Pelotas, município onde foi prefeito entre 2013 e 2016. Isso significa que, a cada dez dos 201,5 mil pelotenses que foram às urnas no segundo turno, nove votaram em Leite.

Embora tenha vencido a eleição por uma margem pequena no Estado (53,62% dos votos), o apoio esmagador que recebeu no reduto em que sua capacidade de gestão já foi colocada à prova fará com que Leite chegue ao Palácio Piratini com um capital político de peso. Derrotado pelo tucano, o atual governador José Ivo Sartori (MDB), por exemplo, teve uma vantagem bem menor em Caxias do Sul, onde foi prefeito por dois mandatos (61,61%). A vantagem de Leite também supera em muito a obtida por Sartori em Caxias em 2014, quando venceu Tarso Genro (PT) no segundo turno (79%).

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O sucesso de Leite também foi além de Pelotas e se estendeu pela Região Sul. Além de ter vencido em todos os 23 municípios, em apenas um deles, Aceguá, recebeu menos de 75% dos votos. Mas afinal, o que explica tamanha aceitação?

A Gazeta do Sul foi a Pelotas, a 300 quilômetros de Santa Cruz, para tentar entender o fenômeno. A avaliação de aliados, eleitores, lideranças e especialistas é semelhante: foi justamente a gestão de Leite na Prefeitura que deu a ele esse apoio. Após se eleger com 27 anos, Leite encerrou o mandato com 87,2% de aprovação. Mesmo assim, decidiu não disputar a reeleição e coordenou a campanha que levou a sua vice, Paula Mascarenhas, a dois feitos inéditos na história local: a primeira mulher eleita prefeita e a única vitória em primeiro turno até hoje no município.

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As realizações do governo Leite incluem um pacote de obras de infraestrutura que deram uma nova cara a uma cidade onde o declínio econômico ao longo do século passado é visível a cada esquina – trata-se do quarto maior município do Estado em população e apenas o nono maior PIB. Pragmático, Leite fez uma administração baseada em movimentos bem calculados e amparados em pesquisas de opinião. Carismático e apostando na presença ostensiva nas ruas e nos meios de comunicação, teve ganhos de popularidade em atos de impacto, como ao reduzir a tarifa de ônibus e ao retirar recursos dos desfiles de Carnaval para aplicá-los em saúde pública. “É uma pessoa vocacionada”, observa a cientista política Elis Radmann. Leite também é reconhecido pelas melhorias em escolas municipais. “Quem tem filho, votou nele”, afirma Alessandra Bica, de 43 anos, dona de uma banca dos tradicionais doces pelotenses no Centro.

Para pessoas que acompanharam de perto a sua ainda breve trajetória, é clara a percepção de que Leite tem pretensões mais altas. Sua meta, dizem pessoas próximas, é concorrer à Presidência da República. “É um político novo e a comunidade tem um respeito muito grande por ele. É o líder político mais poderoso de Pelotas hoje, longe dos outros. E pode ter certeza que ele vai ganhar os gaúchos também”, analisa o jornalista e ex-vereadora Conceição Mohnsam.

Esperança para a Região Sul

A candidatura de Leite a governador também representou esperança para uma região que enfrenta dificuldades econômicas e que se considera subvalorizada pelo governo estadual. Para Gilmar Bazanella, coordenador da Aliança Pelotas, uma frente de entidades empresariais que atua em defesa do desenvolvimento da Metade Sul, os municípios vêm aos poucos se conscientizando sobre a importância da representação política para que as demandas regionais saiam do papel. “É um sentimento de pertence. A mobilização pela duplicação da BR-116 nos mostrou que é possível mudar se estivermos unidos, e vimos no Eduardo uma possibilidade de ter um representante no governo do Estado”, observou.

Além da gestão aprovada na Prefeitura, também pesou, na visão de Bazanella, o fato de Leite ter se projetado sem sair de Pelotas, ao contrário do caminho mais comum, em que políticos constroem suas carreiras fora das bases – na Assembleia Legislativa ou Câmara Federal, por exemplo. “Muitos políticos fizeram suas carreiras na Capital. Ele teve proximidade com a sua terra até o último momento”, destacou.

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“Foi um prefeito diferente”, diz pesquisadora

Para a diretora do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO), Elis Radmann, que monitorou a aprovação de Leite durante todo o seu governo em Pelotas, o sucesso dele enquanto prefeito se deve a uma rara conjugação entre realização de obras e ações humanas. Segundo ela, o estilo do tucano rompia com o de todos os seus antecessores. Fetter Júnior, por exemplo, de quem Leite foi chefe de gabinete, tinha um perfil eminentemente obreiro e acabou enfrentando alta rejeição.

Foto: DivulgaçãoEduardo Leite venceu o segundo turno no Estado
Eduardo Leite venceu o segundo turno no Estado

 

Já Fernando Marroni (PT), derrotado por Leite no segundo turno, focou sua gestão em ações de moralização, como a regularização da ocupação de espaços públicos e da cobrança de IPTU, e com isso acumulou desgaste. “O bom prefeito é aquele que cuida da cidade, mas também das pessoas; que cuida da minha rua, mas também da minha saúde. É esse paradigma que fez Leite ser um prefeito diferente”, observa Elis.

Soma-se a isso outros fatores, como a sua habilidade em usar os meios de comunicação e estratégias de aproximação com a população, como por meio de atendimentos em bairros. Conforme Elis, Leite também teve cuidado em fazer indicações de perfil técnico para o governo e conseguiu evitar conchavos políticos mal vistos pela sociedade. Durante toda a gestão, baseou suas decisões de maior impacto em pesquisas – foi assim, por exemplo, quando resolveu abrir mão de concorrer a reeleição.

Na campanha para prefeito, teve que driblar a desconfiança que gerava por ser muito jovem e a consequente pecha de inexperiente. Por outro lado, de acordo com a pesquisadora, seus atributos físicos, embora sejam um aspecto secundário, também lhe ajudaram. Seu apoio maior sempre foi entre as mulheres, eleitorado mais identificado com pautas humanas e sociais.

Foto: Rodrigo AssmannSegundo Elis, Leite conjuga a realização de obras e as ações humanas
Segundo Elis, Leite conjuga a realização de obras e as ações humanas

 

CINCO RAZÕES PARA O SUCESSO DE LEITE

1 - Filiado ao PSDB desde os 16 anos, Eduardo Leite se elegeu vereador aos 23 e presidiu a Câmara em 2011, um ano antes de se eleger para a Prefeitura. Seu nome apareceu como um potencial candidato a prefeito quando, após ter sido chefe de gabinete do antecessor Fetter Júnior, o grupo governista passou a testar nomes para a sucessão. Dessa bateria de testes, saíram duas chapas, uma delas encabeçada por Leite e com Paula Mascarenhas de vice. Às vésperas da eleição, porém, denúncias de corrupção tiraram a outra chapa do páreo e, com isso, Leite concorreu como único candidato da situação.

2 - Após enfrentar dificuldades nos dois primeiros anos de governo, por conta de uma maioria oposicionista na Câmara que barrava seus projetos e apostava em CPIs na tentativa de desgastá-lo, Leite viu a maré virar a seu favor a partir do momento em que conseguiu começar a tirar obras grandes do papel. Dois fatores foram decisivos nisso: primeiro, o País ainda não estava no auge da recessão e os municípios ainda dispunham de acesso mais fácil a recursos federais; segundo, financiamentos com o Banco Mundial deixados pela gestão anterior que foram executados por Leite.

3 - As obras mais marcantes foram as requalificações de vias, que transformaram a paisagem urbana e a mobilidade de Pelotas. Os investimentos – alguns ainda estão sendo entregues pelo novo governo – atingiram algumas das principais avenidas da cidade, com duplicações, pavimentações, construção de faixas elevadas e rampas de acesso, implantação de ciclovias e corredores de ônibus e revitalizações das paradas de ônibus, entre outros. Até então, muitos desses trechos eram de chão batido e registravam altos índices de acidentalidade – é o caso da Salgado Filho, que conecta a região central com os maiores atacados da região.

Foto: Rodrigo Assmann

 

4 - Leite também viu sua popularidade crescer ao tomar uma decisão histórica: retirar recursos do Carnaval para investi-los na saúde. Foi em 2016, quando o então prefeito, para ira das escolas de samba locais, anunciou uma redução de quase R$ 2 milhões na verba destinada aos desfiles de rua daquele ano para subsidiar o funcionamento da primeira Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) do município, que foi inaugurada em julho daquele ano no Bairro Areal. Na ocasião, o governo decidiu bancar sozinho a unidade, que desafogou os pronto-socorros municipais, devido ao não cumprimento de repasses dos governos federal e estadual. Uma segunda UPA também foi construída à época, mas ainda não entrou em funcionamento.

Foto: Rodrigo Assmann

 

5 - Outros feitos também ajudaram a elevar a aprovação de Leite. Logo que assumiu, por exemplo, ele interrompeu os sucessivos aumentos na tarifa de transporte público, até então vinculados ao reajustes salariais dos motoristas e cobradores e passando a levar em conta os custos do serviço. Em 2013, primeiro ano de governo, a tarifa foi, inclusive, reduzida. Com isso, foi um dos únicos governantes que conseguiu escapar de ser alvo, naquele ano, dos protestos de junho, que tinham como foco principal o preço da passagem de ônibus. Leite também encontrou aceitação ao adotar o uso de uniforme na rede municipal de ensino e ao fazer reformas em escolas municipais.

 

NAS RUAS DE PELOTAS

Foto: Rodrigo Assmann

Mauro Tedesco, 62 anos, engenheiro agrônomo: "Ele cumpriu o que prometeu na campanha. Não inventou nada. Disse que a missão dele era trabalhar quatro anos e que, nesse período, ia fazer o que era possível. E fez. Houve uma mudança radical no município."

 

Foto: Rodrigo Assmann

Danilo de Souza, 25 anos, motorista: "Desconheço um prefeito que tenha feito tanto, principalmente em infraestrutura. Tem regiões da cidade que até ficávamos meio tristes de olhar como eram, e ele chegou e fez praticamente milagres. A meu ver, foi um dos melhores governos."
 

Foto: Rodrigo Assmann

Greice Baysdorf, 33 anos, professora: "Ficou visível que ele fez muitas obras aqui na parte central da cidade. Conseguimos visualizar muitas coisas significativas, mais do que outros prefeitos. Tem áreas que não vimos melhora, como a segurança, mas no geral foi positivo."
 

Foto: Rodrigo Assmann

Sirley Valente, 80 anos, aposentada: "Ele é digno. Aqui na nossa cidade, foi muito eficiente. Sempre preocupado com tudo. Estava sempre pronto para atender a população."

 

Foto: Rodrigo Assmann

Cristiane Miritz, 47 anos, assistente administrativa: "Como mulher, não achava que ele faria tantos votos aqui em função da situação dos exames pré-câncer. Votei nele por ser contra o Sartori, mas com rancor. Por outro lado, ele realmente deu uma melhorada na cidade."
 

Foto: Rodrigo Assmann
Primeira UPA do município foi inaugurada no governo de Leite