Casas alagadas 24/05/2019 23h35 Atualizado às 08h42

Após novos alagamentos, família pede rede d’água em Rio Pardo

Suspeita de que menino de 6 anos contraiu leptospirose eleva reclamações sobre enchentes no Bairro Jardim Boa Vista

Os dias de chuva causam tensão aos moradores da Rua Luís Magalhães Ferraz, em Rio Pardo. As casas localizadas na via, que fica em uma baixada do Bairro Jardim Boa Vista, são constantemente invadidas pela água mesmo em precipitações de média intensidade. Não bastassem os transtornos causados pelos alagamentos, a água traz sujeira, lixo e esgoto da rua para dentro das residências.

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O até então problema de saneamento básico – que foi retratado no início de maio em reportagem do Portal Gaz – virou recentemente uma situação de saúde pública. Moradora da Luís Magalhães Ferraz, a dona de casa Cristiane Nascimento da Rosa precisou agir rápido diante da suspeita de que o filho Enzo tivesse contraído leptospirose. Esta doença infecciosa é transmitida pela urina de animais, principalmente por ocasião de enchentes. “Inicialmente meu filho teve tosse forte, aí levei para consultar com o médico, que deu remédio para isso. No outro dia o Enzo acordou bem ruim, com dores fortes no corpo, não deixando nem mesmo eu ou o pai dele encostar”, relatou Cristiane.

Depois de levar a criança novamente ao médico, foram solicitados exames de sangue e urina e uma ecografia. A partir disso o menino de 6 anos foi diagnosticado com uma infecção no estômago. “Dei uma dose do remédio receitado e não adiantou. No outro dia ele acordou com febre, vômito, pele amarelada e olhos vermelhos, então o médico suspeitou que fosse leptospirose e iniciou o tratamento”, disse a mãe.

A dolorida última injeção do menino Enzo

Na tarde da última quinta-feira, o menino Enzo tomou a última das cinco injeções no tratamento contra a leptospirose. Desesperada, a mãe Cristiane pede providências à Prefeitura de Rio Pardo. “Eu não podia esperar o resultado do exame com o médico dizendo que, diante de todos os sintomas, meu filho estava com leptospirose. Se nós não tivéssemos sido pais zelosos e atenciosos, nosso filho estaria morto, pela rapidez com que a doença age. É a vida do meu filho que está em jogo”, disse. “Ele vem tomando doloridas injeções que me fazem chorar de tanta dor que ele sente, tudo porque a Prefeitura não dá o mínimo de saneamento básico para nós, moradores.”

De acordo com o pai André, a Prefeitura havia informado que já teria iniciado a licitação para compra de material para a nova rede pluvial. “Entrei no Portal da Transparência e lá informa licitações para caminhonete, ar-condicionado e outras coisas, mas não para o material da rede”, afirmou. Ele agora pretende acionar o Ministério Público.

Prefeitura promete solucionar o problema em curto prazo

Conforme o secretário de Obras e Saneamento de Rio Pardo, Júlio César Silva, o Município está finalizando o levantamento de custos para efetivar a compra de material para a nova rede pluvial da Luís Magalhães Ferraz. Ao mesmo tempo, a secretaria termina uma rede próxima à Estação Férrea. “Na sequência devemos iniciar o trabalho. Se o tempo ajudar, o serviço começa nas próximas semanas e tem prazo de 30 dias para ser concluído”, prometeu.

Segundo os moradores da rua, os canos de 30 milímetros não dão vazão à água da chuva. Para conter a enchente, de acordo com o secretário, serão construídas três caixas coletoras de água no local. “Vamos abrir toda a rua e instalar canos novos de 80 milímetros para dar uma boa vazão, trazendo a água que vem desde a Rua João Goulart, passa pela Luís Magalhães Ferraz e desemboca na Rua Zero Hora, que tem canos de um metro.”

Segundo Silva, o custo da obra gira em torno de R$ 80 mil. “Esse valor engloba a reposição de calçamento, canos, tijolos, cimento, areia e pranchas, dentre outros materiais que estamos levantando e que são necessários para a construção das caixas e da rede, além da mão de obra e horas-máquina”, explicou. “Este problema não foi resolvido por nenhuma administração. Nos comprometemos com essas pessoas e vamos realizar o trabalho para construir uma rede de drenagem pluvial que evite enchentes e mais problemas para aquela região.”

Agindo rápido para evitar o pior

Segundo Cristiane Nascimento da Rosa, foi uma decisão do médico iniciar o tratamento contra leptospirose mesmo sem um exame comprovando a doença. “Ele me disse que se fizéssemos o exame no meu filho, levássemos o menino para casa e esperássemos o resultado da análise, que demora cerca de 15 dias, o Enzo poderia até mesmo vir a óbito, diante de uma doença que avança rapidamente no organismo, sobretudo de uma criança”, comentou Cristiane.

A água, que invade o terreno da família, atinge também o interior da casa. “O Enzo não teve contato direto com a água da enchente, mas o médico nos disse que, mesmo depois de 40 dias, a leptospirose permanece no pátio, nas paredes, no piso e até mesmo na areia em que ele brinca. Por aí ele pode ter contraído a doença”, disse o pai André da Silva Rodrigues. O marceneiro sequer conseguiu instalar a cozinha que vem construindo com as próprias mãos, uma vez que a água chega à peça e estraga o material. “Não posso pintar, não posso realizar uma manutenção, nada, pois a água que entra em casa e estraga tudo.”

Para o freteiro Cristiano Lopes, a situação de Enzo remete ao seu passado. “Eu tive leptospirose. Depois de três dias sem tratar eu já não enxergava mais devido ao avanço da doença. Quando fui ao médico ele me disse que se eu demorasse mais um dia, teria morrido”, recordou. A garagem do rio-pardense é atingida até com chuva de pouca intensidade. “Como o bueiro está ao lado, rapidamente alaga. A maioria dos objetos fica erguida para evitar que estraguem”, comenta.

Foto: Lula Helfer