Setembro Amarelo 15/09/2019 16h33 Atualizado às 16h55

Precisamos falar (e ouvir) sobre suicídio: quais são os sinais de alerta

A decisão de pôr fim à própria vida não tem apenas um motivo

Enquanto essa reportagem estava sendo produzida, ao longo da última semana, pelo menos uma pessoa tirou a própria vida em Santa Cruz do Sul. O caso aconteceu na terça-feira, em um hotel da área central, e teve como vítima um homem. Desde janeiro, já foram 17 suicídios no município, apenas um caso a menos do que o total registrado em todo o ano passado.

Falar sobre esse fenômeno é falar de um problema complexo, que anualmente vitima 12 mil pessoas no Brasil e aproximadamente 800 mil em todo o mundo. A decisão de pôr fim à própria vida não tem apenas um motivo, mas 97% dos suicidas possuem algum tipo de doença mental tratável. Violência sexual e doméstica, abusos, problemas financeiros e questões genéticas também entram para a conta de fatores que motivam as vítimas. Se essas pessoas forem ouvidas a tempo e sem julgamentos, no entanto, é possível reverter o quadro e evitar que o número continue aumentando. Precisamos falar (e ouvir) sobre suicídio.

Está precisando de ajuda?

Fale com alguém da sua convivência, procure um médico ou ligue para o Centro de Valorização da Vida pelo 188 – a ligação é grátis e anônima.

 

  Sobrevivente de si mesma  

Aos 15 anos a paranaense Pamela Cristina Nazar Zanche Flores, radicada em Santa Cruz do Sul há pouco mais de uma década, tentou acabar com a própria vida. Na época, ela morava com o pai e a madrasta e precisava lidar, no auge da adolescência, com a separação dos pais e uma relação familiar complicada. Por uma sorte do destino, Pamela foi socorrida a tempo e sobreviveu. Um ano depois, no entanto, o surgimento de novos problemas levou a jovem a tentar o suicídio pela segunda vez. E novamente saiu com vida.

Apesar de nunca ter sido diagnosticada com depressão, a estudante de Psicologia conta que não via um propósito na vida e que escolheu a morte como uma forma de acabar com a dor que sentia. Com a ajuda da mãe, no entanto, entrou para uma igreja e transformou seu sofrimento em superação. A história dela agora é tema de palestra em escolas, empresas, presídios e qualquer outra instituição que a convide para falar sobre o assunto. Orgulhosa de ser uma sobrevivente de si mesma, como são chamadas as pessoas que passaram pela situação, Pamela tem buscado ajudar gente que pode estar enfrentando o que ela enfrentou.

“A igreja foi algo que funcionou para mim, mas não quer dizer que esse é o remédio para todo mundo. A pessoa que está pensando em suicídio precisa ser ouvida e acolhida, antes de mais nada”, afirma. Se na época Pamela não via uma razão para estar viva, hoje ela acredita que ninguém vem ao mundo por acaso e vê sentido, inclusive, na própria dor. Para falar sobre todos esses assuntos nas suas palestras, recorre a uma série de metáforas e histórias. “Uma das coisas que eu sempre conto é sobre uma ponte que existe em Londres e se tornou palco de muitos suicídios. Essa ponte é monitorada por conta disso e um dia uma pessoa teve a ideia de deixar bilhetes por lá, com palavras de conforto. Com isso, uma série de mortes já foi evitada. Às vezes a gente não sabe, mas pode ser o bilhete de alguém”, conta.

Na vida de Pamela, o seu bilhete foi um professor de ensino religioso. Hoje ela nem recorda do nome dele, mas lembra da relação de carinho e das palavras gentis que ouvia. “Cada um tem seu fio de esperança. A gente pode recorrer a outra pessoa, à música, à arte ou a qualquer coisa que nos faça sentir bem”, destaca.

Atualmente ela está na metade do curso de Psicologia, que é o que sempre sonhou em fazer, é casada e tem uma filha de 11 anos e um filho de apenas 1 mês. Os problemas, assim como na adolescência, voltaram a aparecer na vida adulta, mas hoje a mentalidade é outra. “Naquela época eu me culpava por coisas que estavam acontecendo e absorvia tudo de ruim que havia na minha volta, mas aprendi a não deixar que a maldade dos outros me atinja”, relata. “Muitas vezes a gente quer mais da vida, e esquece que a vida tem sentido em si mesma e que não existe uma só forma de viver. Vale a pena esperar o turbilhão passar, porque até isso tem sentido. A dor nos ensina. Conversando com uma ex-presidiária ela me disse, ao final da conversa, que iria sair do presídio pelos netos dela, e que não seria uma ex-presídiária, mas uma avó. E é isso. Nós precisamos aprender a ressignificar as coisas.”

LEIA MAIS: “Não é a solução”, diz jovem que ficou paraplégia após tentativa de suicídio

 

  Setembro Amarelo em Santa Cruz  

Segundo dados do Centro de Valorização da Vida (CVV) Brasil, no Rio Grande do Sul a taxa de óbitos por suicídio é de 5,01 mortes para cada grupo com 100 mil habitantes. No interior do Estado, Santa Cruz do Sul está entre os municípios com o maior número de mortes espontâneas. Na última década, foram registrados, em média, 16 suicídios para cada 100 mil habitantes por ano. As atividades de prevenção em Santa Cruz ganharam força desde 13 de setembro de 2017. Por mobilização dos voluntários da mantenedora do CVV, a Amigos da Vida, foi criada a lei municipal 7.829, instituindo o Setembro Amarelo.

No município o CVV conta 13 voluntários, que se revezam em escala de plantão para atendimento telefônico. O posto local funciona em uma sala cedida pelo Corpo de Bombeiros. As ligações geradas para o número 188 – que é grátis – vão para uma central em São Paulo e dali são direcionadas ao ramal que estiver livre em alguma unidade do CVV do País. As ligações são sigilosas, assim como o atendimento. Existem no Brasil 115 postos do CVV, distribuídos em 23 estados e que recebem em torno de 10 mil ligações por dia. São 3 mil voluntários envolvidos na atividade. Além do 188, o atendimento pode ser feito de forma virtual, por meio do site www.cvv.org.br.

 

  Saiba mais  

- O suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos

- Por ano, aproximadamente 800 mil pessoas se suicidam em todo o mundo, o que representa uma morte a cada 40 segundos

- Para cada adulto que se suicida, pelo menos outros 20 atentam contra a própria vida

- O Brasil é o oitavo país do mundo em número de casos, com 12 mil por ano, o que representa uma morte a cada 45 minutos

- Como muitos casos não são notificados, especialistas acreditam que o número real pode ser dez vezes maior

- Diferentes motivos levam um indivíduo a tomar a decisão de se matar. Entretanto, 97% das pessoas têm algum tipo de doença mental que poderia ser tratada

- Violência sexual; abusos; violência doméstica; problemas financeiros e no trabalho; morte e adoecimento de parentes; doenças ou deficiências físicas; bullying; familiares que tenham tendência ao suicídio e questões socioculturais, genéticas, psicodinâmicas e filosófico-existenciais também são fatores que desencadeiam esse fenômeno

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  “É preciso dizer que acontece e é comum”, recomenda pesquisador  

Para o médico psiquiatra Fernando Godoy Neves, o suicídio precisa ser um tema amplamente debatido. “É preciso falar, falar que acontece, que é comum. Infelizmente na nossa região existem as taxas mais altas de suicídio. Temos o dobro de casos do Estado e quatro vezes a taxa do País.”

Segundo Neves, que é pesquisador e membro do Comitê de Prevenção ao Suicídio da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS), é necessário que familiares e amigos criem condições favoráveis para que a pessoa que tem pensamentos suicidas sinta-se confortável para falar. “É muito difícil fazer com que alguém fale que quer morrer e que quer se matar, assim como é muito difícil dizer para alguém da família, para alguém amado, que se está pensando em suicídio.”

Assim como outras doenças, a prevenção é o melhor tratamento. “É preciso que se tenha melhores condições sociais, para fazer com que as famílias e escolas encontrem um suporte para lidar com o sofrimento psicológico e emocional. Proteger os jovens do uso de drogas e álcool, pois isso favorece o risco de doença mental e, consequentemente, aumenta muito os casos de suicídio.”

Conforme o pesquisador, o que o suicida quer não é simplesmente acabar com a sua vida, mas colocar um ponto final no sofrimento e na angústia que sente. “Este é o maior risco, pois em uma atitude de impulso, esperando acabar com o seu sofrimento, a pessoa pode optar pelo suicídio.”

Foto: Arquivo Pessoal

 

  Os sinais de alerta  

Quando um paciente com depressão está em tratamento e o médico detecta a possibilidade do suicídio, ele precisa dividir a informação com um familiar ou uma pessoa próxima. A quebra da confidencialidade, neste caso, é indicada como uma ação em conjunto. “É uma informação que não pode ser guardada, pelo risco de o paciente vir a se suicidar de fato. O paciente pode até dizer ‘vai passar’, ‘vou melhorar’, mas ele não tem este controle”, explica Fernando Godoy Neves. Para quem não está em tratamento, algumas frases ditas pela pessoa podem ser um alerta. São comentários do tipo “a vida não tem sentido”, “não sei por que estou vivo”, “eu sou um incômodo para todos”, “não sirvo para nada”, “tenho vontade de dormir e nunca mais acordar”, “estou tendo pensamentos ruins e não quero mais falar sobre isso”. “Podem ser falas ou até mesmo comentários em redes sociais”, alerta o psiquiatra.

  Falar é importante, ouvir também  

- Crie um ambiente confortável e seguro para iniciar a conversa.

- Mantenha o olhar na pessoa (esqueça o celular por alguns minutos).

- Tenha empatia – tente compreender a dor dessa pessoa.

- Não interfira nas pausas e nem complete frases.

- Não dê opiniões pessoais com exemplos da própria experiência.

- Não faça comparações do problema dessa pessoa com a de outras.

- Não simplifique a situação com frases como “isso passa” ou “você supera”.

- Não responda a possíveis agressões.

- Pergunte se a pessoa está pensando em suicídio e os motivos desse pensamento.

- Ofereça auxílio para buscar ajuda médica profissional.