História 19/09/2019 21h39 Atualizado às 18h33

As marcas da Guerra dos Farrapos em Santo Amaro

Vila que hoje faz parte do distrito de General Câmara foi palco de combates e acabou transformada em quartel-general dos imperiais

A escuridão da noite encobria as casas em estilo açoriano e as grossas paredes brancas de cal da imponente Igreja Matriz de Santo Amaro, inaugurada 51 anos antes. Abaixo, na encosta do Rio Jacuí, o único ruído era o das águas correndo, caudalosas, rumo ao Guaíba. Até que o silêncio foi quebrado pelo barulho de barcos atracando na praia e de soldados desembarcando às pressas, com seus sabres e adagas tinindo na cintura. Então, o estampido de tiros de mosquetão despertou o vilarejo.

Começava, naquela noite de abril de 1838, mais um ataque da esquadra imperial comandada por  Francisco Pedro de Abreu, também conhecido por Chico Pedro ou Moringue, contra tropas farrapas em território de Santo Amaro, hoje distrito de General Câmara e destino de muitos moradores do Vale do Rio Pardo nos fins de semana quentes de verão. O alvo, na ocasião, era um grupo liderado pelo tenente-coronel farroupilha Antônio Joaquim Dorneles. Filho de uma família tradicional de Santo Amaro, e oficial do Império antes de aderir à causa republicana, Dorneles era figura temida pelos legalistas. Contava-se que, certa vez, um homem teria morrido de susto só de saber que tropas sob o comando de Dorneles se aproximavam.

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Mas Chico Pedro também possuía uma fama que o precedia. Natural de Porto Alegre, havia estreado na Guerra dos Farrapos em combate contra Bento Gonçalves em 31 de março de 1836, nas imediações de Arroio dos Ratos. Desde então, Moringue foi galgando posições de comando entre os imperiais. Em 1837, então com 26 anos, já tinha o posto de capitão.  Entre aliados e inimigos, ganhou fama de destemido, inquieto, truculento e talhado para missões perigosas. Gostava de atacar à noite, pegando os oponentes de surpresa.

Tal estratégia, mais uma vez, funcionaria no ataque a Dorneles em Santo Amaro, naquela noite de abril. Surpreendidos, os farrapos tiveram que bater em retirada, concedendo a Moringue sua quarta vitória em combates travados naquele vilarejo. E não seria a última. Segundo relata o pesquisador e escritor Francisco Pereira Rodrigues, no livro Santo Amaro: QG de Chico Pedro - Fragmentos da História Rio-Grandense (Martins Livreiro, 2003), Abreu comandou seus homens em, pelo menos, seis batalhas na vila colonizada por açorianos. Venceu todas.

Santo Amaro, então dividida entre simpatizantes de republicanos e legalistas, acabou transformada por Moringue em quartel-general dos imperiais, de onde ele partia para investidas em outros pontos da província e para onde retornava após os confrontos. Trata-se de uma faceta pouco difundida da história do Rio Grande do Sul e de Santo Amaro, talvez porque – e essa é a opinião do pesquisador Francisco Pereira Rodrigues – envolve um inimigo feroz dos heróis farrapos, o qual fez a balança pender para o lado imperial na Revolução Farroupilha. Pior: foi o comandante do controverso Massacre de Porongos, um dos episódios menos honrosos da Guerra dos Farrapos. Entretanto, não há como negar que foi, também, um dos personagens que deixaram marcas, a ferro, fogo e sangue, no solo da região.

O QG de moringue

Natural de Santo Amaro e membro da Academia Rio-Grandense de Letras, o escritor Francisco Pereira Rodrigues tem 106 anos e vive hoje em Porto Alegre. Em QG de Chico Pedro, narra que Moringue invadiu Santo Amaro pela primeira vez em janeiro de 1837. Tinha ordens para socorrer o tenente-coronel Antônio Manuel de Azambuja, filho de uma família tradicional do vilarejo, que estava cercado por tropas farrapas. Fiel a sua estratégia de marchar à noite, Moringue usou a escuridão para surpreender e expulsar os farroupilhas, e decidiu montar ali seu quartel-general.

Para a professora e pesquisadora Olinda Konrad, moradora de Santo Amaro, a decisão de Moringue foi estratégica. Segundo ela, à época boa parte do vilarejo simpatizava com os farroupilhas. “Logo, permanecer aqui era uma forma de tentar controlar os farrapos”, observa. Porém, a estada não foi nem um pouco tranquila para os imperiais.

Segundo as pesquisas do escritor Francisco Rodrigues, pouco tempo depois o militar Antônio Joaquim Dorneles aderiu à causa republicana e não teve receio de enfrentar o temido Moringue – porém, nunca comemorou vitória sobre ele no vilarejo onde nasceu. Dentre os seis combates vencidos por Chico Pedro em Santo Amaro, Dorneles participou de quatro: o primeiro logo após a instalação do QG, no início de 1837, depois em abril e novembro de 1838 e em março de 1840. No segundo desses – narrado no início desta reportagem – chegou quando Abreu estava em Rio Pardo, mas foi surpreendido com o retorno do inimigo na calada da noite.

Já na última incursão à vila, Dorneles fez três ataques ferrenhos a Moringue em um único dia, mas em todos foi forçado a recuar. Conforme a descrição de Rodrigues, à noite o vilarejo já estava tomado por um cheiro forte de sangue e suor. Para escapar, Dorneles e seus homens abandonaram os cavalos, enveredaram por picadas na mata e atravessaram o rio a nado.

O cruel Cara de Sola

Um personagem cercado de mistérios converteu-se em um importante aliado de Moringue em Santo Amaro. O homem, até hoje identificado apenas pelo estranho apelido – Cara de Sola –, seria um poderoso estancieiro, exportador de charque e dono de uma senzala lotada de escravos. Foi ele quem cedeu parte de suas terras para que as tropas imperiais de Moringue fixassem acampamento.

“É curioso que não há nenhum registro que indique seu nome. O que sabemos sobre o Cara de Sola é o que passou de geração em geração”, conta Anajura Maria de Mello da Silva, guia da Central de Atendimento ao Turista de Santo Amaro. Segundo ela, sabe-se que Cara de Sola viveu no imponente casarão com vista para o Rio Jacuí, hoje chamado de Primitivo Solar e tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Perduraram também relatos de que seria um homem cruel. “Ao invés de bois, ele colocava escravos a puxar suas carretas”, conta a guia.

A professora Olinda Konrad confirma os relatos de crueldade. “Ele maltratava muito os escravos, batia muito. Por isso ganhou este apelido. À época, cara de sola era a forma de chamar as pessoas rudes e cruéis.” Segundo ela, o casarão do estancieiro teria servido de quartel-general a Moringue, que despachava dali enquanto os soldados acampavam nas terras de Cara de Sola.

Francisco Pereira Rodrigues especula, em sua obra, que teria ocorrido no casarão do charqueador um baile com a presença do futuro Duque de Caxias, comandante do exército imperial e presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O pesquisador revela que, em seus escritos, Chico Pedro conta ter garantido a segurança do presidente durante uma viagem secreta para Rio Pardo, em junho de 1844. Na volta, desceram em um lanchão até Santo Amaro, onde teria ocorrido a festa.

Para o escritor, a casa do estancieiro seria a única edificação, à época no vilarejo, capaz de receber um evento de tal envergadura. “Era o único sobrado existente na povoação com foros de palacete. Segundo a tradição, era decorado com esmero: móveis talhados em madeira nobre e quadros célebres dispostos nas paredes internas, estas pintadas sob afresco”, narra em QG de Chico Pedro.

Foto: Ricardo Düren Casa onde nasceu José Gomes de Vasconcelos Jardim, o primeiro presidente da República Rio-Grandense, sofre com a ação do tempo
Casa onde nasceu José Gomes de Vasconcelos Jardim, o primeiro presidente da República Rio-Grandense, sofre com a ação do tempo

 

No massacre de Porongos
Moringue comandou a tropa que investiu contra o acampamento de Davi Canabarro no Massacre de Porongos, em novembro de 1844, quando as negociações de paz já estavam em curso. Os historiadores divergem entre duas versões: ou Moringue agiu contra a vontade de Caxias, ou seguiu um acordo secreto firmado entre Caxias e Canabarro. No ataque foi exterminado o grupo dos Lanceiros Negros, formado por escravos libertos pelos farroupilhas. Ao fim da revolução, Moringue recebeu o título de Barão do Jacuí e se retirou para o Uruguai, onde armou uma milícia para defender os estancieiros brasileiros dos ladrões de gado. Ainda viria a lutar na Guerra do Paraguai antes de morrer, aos 80 anos, em Porto Alegre.
 

Um causo
Histórias curiosas envolvendo personagens nem tão famosos quanto os líderes imperiais e farroupilhas também povoam o imaginário dos moradores de Santo Amaro.  Anajura ouviu falar de um homem que, possivelmente no século 18, tinha consigo um caixão funerário – artigo raro em uma época em que os falecidos eram sepultados direto no chão. Conta-se que o homem costumava emprestar o caixão às famílias que perdiam entes queridos, sob condição de devolverem o esquife após o velório. Mas o abuso foi tanto que o dono do caixão, para colocar fim aos pedidos de empréstimo, inventou uma história estranha. “Ele disse que vinha fazendo rapadura dentro do caixão e, desde então, ninguém mais o pediu emprestado”, conta a guia. Causos curiosos, em um  povoado com quase 250 anos, não faltam.

Foto: Ricardo Düren A guia Anajura: causos curiosos também integram o imaginário de Santo Amaro

A guia Anajura: causos curiosos também integram o imaginário de Santo Amaro


E o misterioso túnel, existiu?

Um dos endereços mais conhecidos de Santo Amaro é também o mais castigado pela ação do tempo. A casa onde nasceu, em 12 de abril de 1773, José Gomes de Vasconcelos Jardim, o primeiro presidente da República Rio-Grandense – instituída durante a Revolução Farroupilha –, está caindo aos pedaços. Parte do telhado desabou, o forro está podre e ameaçadoras rachaduras deixam à mostra tijolos maciços e pedras usadas na construção. A guia Anajura Maria de Mello da Silva ressalta, porém, que o casarão está na lista de prédios tombados que ainda serão restaurados pelo Iphan.

Ela também conta que, segundo uma lenda narrada de boca em boca, haveria um túnel ligando a Igreja Matriz à casa da família do líder republicano. Conta-se que a entrada ficaria sob um tampão, no altar situado rente à parede da direita da nave, onde há uma imagem de São Miguel Arcanjo. Segundo a lenda, o túnel serviria de rota de fuga a escravos que, após o ingresso na casa dos Jardim, mergulhavam em outro túnel, que os deixava no Rio Jacuí.

Porém, pesquisas mostraram que o túnel não passa mesmo de uma lenda. Segundo o professor Sergio Celio Klamt, coordenador do Centro de Ensino e Pesquisas Arqueológicas (Cepa) da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), levantamentos realizados na igreja descartaram a hipótese de haver um túnel entre o templo e a casa dos Jardim. Segundo ele, realmente foi encontrado um  buraco sob o altar, mas com apenas dois metros de profundidade. “Antigamente eram comuns os sepultamentos abaixo dos altares destas igrejas. Também há muitos casos de escavações feitas por curiosos e leigos nestes pontos de enterramento. Possivelmente foi isso que originou o buraco.”

Foto: Ricardo Düren Diz a lenda que a boca do túnel estaria sob um dos altares laterais
Diz a lenda que a boca do túnel estaria sob um dos altares laterais

 

E os esqueletos?

Inaugurada em 1787, a Igreja Matriz guarda mais mistérios. Em 2006, durante escavações que antecederam as obras de restauro, oito esqueletos foram encontrados sob o templo. Apenas um, enterrado com um par de brincos, pôde ser identificado. Segundo as investigações da Unisc, o corpo é de Rita de Menezes, casada com Francisco Xavier de Azambuja, grande patriarca da família do tenente-coronel Antônio Manuel de Azambuja – o mesmo que foi resgatado por Moringue em 1837.  Descobriu-se que Rita morreu com idade aproximada de 90 anos e que foi sepultada sob o altar principal em 7 de fevereiro de 1801. Não foi possível identificar as demais ossadas, e todas foram novamente sepultadas no local. Um alçapão foi instalado no assoalho e uma camada de concreto, abaixo da abertura, resguarda o local do sepultamento.

Foto: Ricardo Düren Alçapão sobre o local onde ossos estão sepultados
Alçapão sobre o local onde ossos estão sepultados

E a espada?

A Central de Atendimento ao Turista de Santo Amaro guarda uma curiosa relíquia. Trata-se de uma longa espada, com cabo de madeira. Segundo a guia Anajura, sabe-se que a arma pertenceu a um militar chamado Manoel dos Santos Pedroso, o qual seria uma das pessoas sepultadas sob o altar da Igreja Matriz. A espada foi encontrada junto dos ossos. Porém, segundo o professor Sergio Celio Klamt, quando o Cepa realizou suas pesquisas na Matriz, a espada já não estava mais lá. “Ao longo dos anos e de reformas na igreja, os locais de enterramento foram sendo revirados”, comenta. Com isso, não há comprovação da origem da arma. Registros dão conta de que existiu um militar chamado Manoel dos Santos Pedroso, o Maneco Pedroso, estancieiro da região dos Sete Povos das Missões, que morreu na Guerra contra Artigas, na Banda Oriental, em 1816, vindo a ser, supostamente, sepultado em Santo Amaro. Mas essa já é uma história para outro dia.

Foto: Ricardo Düren