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LUÍS FERNANDO FERREIRA

Flagelos e vítimas

Numa das tantas reflexões proporcionadas pelo famoso romance A peste, de Albert Camus, um dos personagens afirma: “Digo apenas que há neste mundo flagelos e vítimas e que é necessário, tanto quanto possível, recusarmo-nos a estar com o flagelo.”

Por flagelo pode-se entender tanto os infortúnios de origem natural, como desastres climáticos, quanto aqueles produzidos por mãos humanas. A violência em suas diversas formas, por exemplo. A diferença é que é mais fácil mobilizar a solidariedade das pessoas para ajudar vítimas de enchentes, terremotos ou similares do que em casos de massacres ou guerras. Pois sempre há justificativas para essas tragédias impostas de forma proposital, e sempre haverá quem as considere necessárias para prevenir um mal maior ou trazer benefícios futuros (que nunca sabemos quais são).

Em se tratando de violência, impressiona a facilidade com que muitos preferem estar ao lado do flagelo. E até mesmo se divertem com isso, transformam em opção de entretenimento, em espetáculo. Aqui, então, já chegamos a outro patamar. A internet é o meio pelo qual coisas antes impensáveis tornaram-se comuns e, para não poucos, parte da rotina.

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É inimaginável que uma multidão de pessoas fique em praça pública assistindo – com prazer – a um animal ser torturado e morto, ou a um jovem praticar automutilação. E aplaudam. Mas na web, em ambientes ocultos (ou nem tanto), esse tipo de cena já adquiriu perturbador status de normalidade no fluxo de conteúdo digital.

Um exemplo: investigações da Polícia Civil de São Paulo confirmaram, recentemente, que transmissões ao vivo nas quais adolescentes torturam animais têm se espalhado em plataformas digitais. Entre dez e 15 animais seriam mortos ou submetidos a violência extrema por noite, sobretudo em servidores do Discord e grupos fechados de aplicativos de mensagens. É o que se chama de “zoossadismo”.

Mais ainda. No mês passado, a Polícia Federal prendeu nove pessoas por suspeita de tortura contra crianças e maus-tratos contra animais no Rio Grande do Sul. A investigação revelou que os suspeitos supliciavam crianças, bebês e bichos domésticos, gravavam tais crimes e vendiam os vídeos na internet. Era comércio. Uma pessoa foi presa em Candiota, outra em Canoas e sete em Bagé.

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Fica a pergunta: que tipo de gente paga para consumir tal “conteúdo”? E quem se presta a distribuir likes e emojis de aprovação ou deboche diante dessa barbárie?
Há flagelos e vítimas, e é necessário recusar-se a estar com o flagelo. Mesmo que tenha já se tornado um produto vendável na “sociedade do espetáculo”.

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