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Arborização em Santa Cruz: preservar é um dever coletivo

Foto: Alencar da Rosa

Biodiversidade é um patrimônio que precisa ser preservado

Santa Cruz do Sul é privilegiada pela natureza pujante que envolve e transpassa o município. Tal biodiversidade merece destaque, visto que as cidades se tornam, a cada dia, grandes selvas de concreto asfaltadas. Contudo, manter esse patrimônio natural – caracterizado principalmente pelo Cinturão Verde e pelo Túnel Verde – é um dever coletivo.

O último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), datado de 2010, aponta que a arborização nas vias públicas de Santa Cruz do Sul é de 86,3%. Se comparado a outros municípios do Brasil, Santa Cruz figura na 1.866a posição. No Rio Grande do Sul, o município é o 222o do ranking. Já na região geográfica imediata, de 14 posições, Santa Cruz do Sul ocupa a oitava.

Mais de dez anos depois, é lógico que esses números mudaram; afinal, em uma década surgem muitas coisas, principalmente no que diz respeito às construções. Não se sabe se o índice de 86,3% diminuiu ou aumentou. O que é possível afirmar é que as árvores têm um papel fundamental na vida de todos os seres vivos. O Túnel Verde, localizado na Rua Marechal Floriano, é um exemplo de beleza e de biodiversidade localizadas na área central de Santa Cruz.

Em dias quentes, sistemas como o do túnel – com galhos que se entrelaçam, unindo os dois lados do passeio público – garantem uma sensação de clima mais agradável, além de reduzirem ruídos. Prova disso é que, na última quarta-feira, sob o Túnel Verde, a temperatura chegou a 26,4 graus. Em comparação ao local, na Rua Ernesto Alves, na sombra, o termômetro apontou 29,1 graus. Também na Ernesto, mas ao sol, o equipamento mediu 36 graus.

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O que é o Cinturão Verde?

Considerado um dos grandes corredores ecológicos da região, o Cinturão Verde está posicionado em formato de meia-lua, a leste do núcleo urbano central de Santa Cruz do Sul. Em 1994, iniciou-se a demarcação do território do Cinturão como área legal e fisicamente demarcada, com 145 marcos de concreto, configurando os 463,786 hectares de área considerada de interesse ambiental para os moradores de Santa Cruz. 

Estudioso do tema e autor de livros como Cinturão Verde: e agora?, o geólogo José Alberto Wenzel salienta que pediu a ampliação do território para mais de 1.028 hectares demarcados, solicitação que foi acolhida pela lei complementar 741, de 2019. Na avaliação do pesquisador, ampliar a área deve ser uma vontade coletiva da sociedade e, mais do que isso, é preciso o interesse da coletividade em preservá-lo. “Hoje se nota cada vez mais clarões em todas as pontas do Cinturão Verde”, adverte.

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Foto: Alencar da Rosa

Para Wenzel, a demarcação deve continuar sendo física. “Claro que se pode ter uma demarcação virtual, só que o aspecto físico dá uma sensação diferente, de pertencimento, à população”, destaca. Além disso, Wenzel acredita que é preciso incentivar a pesquisa no espaço, já que o Cinturão não está somente no limite da zona urbana de Santa Cruz do Sul. “Hoje, a cidade envolve o Cinturão. Ele está dentro da cidade.”

“As árvores que estão ali são seres vivos que nos prestam enormes serviços e se tornam fluxos de espécies. Se olharmos só para o chão, não veremos o que está acontecendo logo acima de nossas cabeças. Temos que levantar nosso olhar e ver o que tem acima.”

José Alberto Wenzel – Geólogo

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A floresta que cruza e une a cidade

Wenzel: ampliar o túnel para mais regiões | Foto: Rafaelly Machado

Uma beleza inconfundível e que já é um patrimônio de Santa Cruz. O Túnel Verde da Marechal Floriano é importante em todas as estações, mas é no verão que as pessoas percebem mais a sua relevância. Sentar em cadeiras na calçada, tomar um sorvete e acompanhar o movimento do Centro não seria o mesmo se ele não existisse. É por causa das tipuanas que se entrelaçam sobre as cabeças desatentas que no local faz, no mínimo, 3 graus a menos que em outros lugares da cidade. 

“A ramada em cima se entrelaça, forma uma floresta urbana de copas, e isso é sensacional, é algo que poucas cidades têm. O Túnel Verde não é simplesmente um renque de árvores dos dois lados. Ele forma um sistema florestal aéreo, com reflexos importantíssimos para o microclima, que equilibra a temperatura, depura as poeiras, absorve ruídos”, explica José Alberto Wenzel.

É por ter consciência dessa importância que o geólogo tem um sonho: fazer com que o Túnel Verde se estenda por mais regiões de Santa Cruz do Sul. “Hoje, ele está majoritariamente na Marechal Floriano, e eu gostaria de estender até o Norte, pela João Pessoa, para o Sul, até a região do Bonfim, para o Leste, até a região do Belvedere, e para o Oeste, até o Lago Dourado”, detalha Wenzel. 

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Está claro que o Túnel Verde é um sistema fundamental e – por que não – símbolo de Santa Cruz. Porém, há também que se conciliar a manutenção das calçadas, oportunizando a acessibilidade adequada, com a boa convivência com as árvores. Hoje já proibidas no Plano Diretor de Arborização (lei municipal 6.447, de 2012), as tipuanas, que compõem o túnel, possuem grandes raízes que, se não têm o espaço suficiente para se desenvolver, acabam por modificar estruturas de concreto.

Na opinião de Wenzel, o conceito de urbanização deve mudar. “Uma calçada não tem que ser completamente reta, plana. As árvores que estão ali são seres vivos que nos prestam enormes serviços e se tornam fluxos de espécies. Se olharmos só para o chão, não veremos o que está acontecendo logo acima de nossas cabeças. Temos que levantar nosso olhar e ver o que tem acima.”

Adaptar as floreiras, como está sendo feito agora, na construção do calçadão da Marechal Floriano, é uma das boas maneiras de garantir essa convivência. “É preciso ter a sabedoria de trabalhar para que as pessoas não caiam e não se machuquem, mas não é cortando as tipuanas que se resolve isso. As torres da Catedral apontam para o céu, o Túnel Verde garante a vida na terra. Se as árvores estão doentes, vamos tratá-las. Árvores não merecem guilhotina, merecem cuidado, zelo”, adverte.

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Podas e plantio

A lei municipal 6.447 diz que “a copa e o sistema radicular devem ser mantidos os mais íntegros possíveis, recebendo poda somente mediante indicação técnica da Secretaria do Meio Ambiente”. Além disso, devem ser autorizadas e executadas apenas quando os ramos estiverem prejudicando o tráfego de pedestres e veículos, se estiverem desvitalizados ou seu estado fitossanitário justificar, se estiverem causando danos ao patrimônio público ou privado ou colocando em perigo a segurança do cidadão, e, por último, quando estiverem oferecendo risco de danos à rede aérea, como de transmissão de energia.

Biólogo Pablo Tadeu Pereira da Silva | Foto: Alencar da Rosa

Entretanto, muitas vezes, não é bem assim que acontece. Podas drásticas e cortes ilegais são verificados com frequência em diversos locais de Santa Cruz do Sul. “O tipo de poda drástica que a gente costuma ver, que fica só o fuste – tipo de caule – está totalmente irregular, ilegal e passível de multa. Fica praticamente só o tronco, e a maior parte das espécies não suporta isso”, enfatiza o biólogo Pablo Tadeu Pereira da Silva. 

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Além da questão climática, tais podas podem prejudicar a atuação de outros seres vivos. “Temos espécies com interação muito positiva para abelhas na área urbana, dependendo da função ecológica que essa árvore tem. Quando você faz uma poda dessas, ela fica em estado de dormência, sem cumprir suas funções ecológicas”, completa o especialista.

Outro problema apontado pelo biólogo é o plantio de espécies exóticas invasoras. Um exemplo é o ligustro, árvore originária da China. “É uma espécie invasora, que se dispersa muito facilmente nos ambientes. Ela não é nativa, os pássaros comem os frutos e ela acaba se dispersando tanto na área urbana quanto nas formações de florestas próximas. Acaba ocupando lugares, funções e nichos que espécies nativas ocupariam”, destaca Silva.

Os planos para a arborização de Santa Cruz

Para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Saneamento e Sustentabilidade, antes de se falar em plano de arborização urbana, há que se falar em inventário da arborização urbana. “Não se entende como planejamento ações em relação àquilo que não se conhece”, enfatiza o secretário Jaques Leo Eisenberger. Dessa maneira, está em processo de revisão um Termo de Referência para contratação de serviços de inventário da arborização do município. “Este inventário será realizado no primeiro semestre do ano que vem, haja vista a necessidade de incluir o valor dos serviços a serem prestados no orçamento do próximo ano”, explica o titular da pasta. Além disso, a respeito de tornar mais rígidas as penalidades para quem infringe o plano de arborização, também será tema a ser revisado no inventário.

Sobre o plantio de árvores em calçadas, Eisenberger afirma que deve ocorrer por meio da obtenção de autorização, onde são indicadas as espécies apropriadas ao local após vistoria técnica realizada. De acordo com o secretário, no Túnel Verde, as situações são analisadas em particular, caso a caso, e as intervenções necessárias são apontadas.

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A Secretaria de Meio Ambiente também informa que a manutenção, em geral, é feita sob demanda da comunidade, que aciona a Central de Serviços para verificação da necessidade de intervenção. “Quanto ao Túnel Verde e árvores de maior porte, há uma programação de podas em parceria com a RGE, em virtude da necessidade de desligamento da rede elétrica. A RGE também possui um sistema de programação de podas de árvores sob a rede, sendo que possui uma licença da Fepam para a execução dessas podas. A partir dessa licença, o Município autoriza a execução gradativa delas.”

Ainda de acordo com o Município, a decisão para plantio desta ou daquela espécie é discricionária do técnico, com base nas características individuais do local e de acordo com os artigos 18 e 19 da lei municipal 6.447/12. A escolha também depende da disponibilidade de espécies no Horto Municipal. A Secretaria de Meio Ambiente indica a alternância de espécies por questões fitossanitárias, mas infelizmente as pessoas preferem harmonizar selecionando apenas um tipo de árvore.

Por questões fitossanitárias, não é indicada a escolha de uma única espécie. Quanto mais diversificada a arborização, menos riscos de pragas e doenças se alastrarem em vários exemplares. 

Obra no calçadão da Floriano deixa espaço mais adequado para o desenvolvimento das árvores | Foto: Alencar da Rosa

Integrar o ambiente construído e a natureza

Não é apenas o meio ambiente que é impactado com a presença das árvores nas cidades. Uma arborização urbana planejada corretamente visa também ao embelezamento de vias e calçadas, cria identidades locais, valoriza a arquitetura e faz uma integração entre o ambiente construído e a natureza, muitas vezes já não presente de forma natural no espaço urbanizado. 

Axel Gustavo Deeke, arquiteto e professor nos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Engenharia Civil na Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), ressalta que a diversificação da vegetação dependerá da visão do próprio arquiteto planejador, que deverá analisar o local, suas necessidades, características, limitações ou potencialidades. “O aspecto visual de uma via, jardim, praça ou parque não é prejudicado pela presença de arborização. Pelo contrário, sua falta é que nos causa estranheza. O uso de vegetação de mesma espécie numa via nos ajuda na criação de percepções visuais de direcionamento, alinhamento e foco num possível percurso ou emolduramento para uma obra arquitetônica. Ao alinharmos troncos e copas de árvores, criamos um elemento novo no espaço, que nos gera ordem e beleza visual ao ter todas as árvores do mesmo tipo.”

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Árvores dos dois lados da Marechal Floriano se entrelaçam e formam o efeito intitulado de Túnel Verde | Foto: Alencar da Rosa

Segundo Deeke, o oposto da vegetação homogênea seria uma vegetação diversa, a heterogênea, que mistura as copas das árvores, suas diferentes cores, formas e alturas. “Assim, criamos um espaço que pode gerar uma permanência agradável, sombras em diferentes momentos, recantos e uma paisagem irregular, porém bela. Além de uma diversidade de árvores, flores e até frutas, gerando um convite à fauna muito maior que uma arborização homogênea.” 

O professor, que pesquisa sobre a formação de túneis verdes, diz que tais sistemas acabam por se tornar marcos da cidade, pontos turísticos e referenciais de como fazer uso do paisagismo no ambiente urbano. “Além de aliar-se ao embelezamento do ambiente construído e conforto térmico, introduz pequenos animais no ambiente, caracterizando de forma única o espaço no qual está introduzido. Santa Cruz do Sul aplicou em diversos pontos o plantio de árvores como a tipuana e o jacarandá, buscando em diferentes bairros a criação de túneis verdes. Plantios contemporâneos às árvores da Marechal Floriano são alguns exemplos, como a Borges de Medeiros; a Independência, nas proximidades do Parque da Oktoberfest; a Tenente Coronel Brito, a Ernesto Alves, assim como há exemplos mais recentes, como a Avenida do Imigrante, que faz uso de uma arborização de pequeno a médio porte, já conseguindo criar uma percepção de túnel arborizado”, comenta Deeke.

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Também arquiteta e professora da Unisc, Adriana Schwindt da Costa observa uma redução dramática da arborização urbana em Santa Cruz, principalmente em lotes que recebem novas edificações. “Na minha opinião, poderia ser dado desconto no IPTU para os imóveis que mantêm as espécies na sua testada, bem como o habite-se das novas edificações estar condicionado ao plantio de espécies junto ao passeio público.”

Há também a questão da preservação histórica de espécies, como a extremosa, árvore símbolo do município. “As extremosas são de porte médio, o que as torna adequadas para calçadas que possuem rede aérea; são caducifólias, ou seja, perdem suas folhas no inverno, permitindo mais entrada do sol, e ainda nos presenteiam com uma delicada e bela florada. A manutenção desse estrato arbóreo é necessária para manter a beleza do nosso ambiente urbano”, acrescenta Adriana.

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