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Briefwechsel | Correspondência

Coragem civil

Querido Rafi,
Esta bússola moral a que te referiste em tua última carta e que realmente ainda existe na Alemanha é uma das bases da sociedade aqui. Na minha humilde opinião, esta bússola é sustentada por dois princípios fundamentais.
Primeiro, a educação que vem de casa. A pessoa que aqui nasce e cresce sabe desde criança, primeiro pelos pais, mas também pela escola, que há regras, responsabilidades e direitos. Que a gente deve fazer o que é correto e não fazer o que é errado. Mas quem diz o que é certo e o que é errado? Simples: a lei. Embora, claro, a ética e a moral cristã também tenham sido faróis de conduta.
Segundo princípio: a certeza de que a lei será cumprida e de que se faço algo errado, se cometo um crime, se deixo o som alto até a madrugada em casa, se jogo um papel no chão na via pública, se deixo de pagar o aluguel… haverá, para cada ato, uma consequência correspondente e prevista… onde? Sim, na lei. E esta vale para todos, desde o estagiário da startup até o juiz da suprema corte, o chanceler e – pasmemos – até para o presidente.
Para quem nasce na Alemanha, é fácil, o cara cresceu e aprendeu o que pode acontecer se não andar na linha. Para os imigrantes e refugiados, o lance é entender e aprender rápido como a banda toca. Aceita que dói menos, como se costuma falar.
Brilhantemente, o bolso do contraventor é geralmente o primeiro a sofrer, com multas das mais variadas. A pena de restrição da liberdade existe, é aplicável e a ela todos estão sujeitos – como no Brasil, não é mesmo? Só que aqui os tribunais não estão longe. De ninguém.
A esmagadora maioria das pessoas que aqui vivem normalmente e respeitam as regras, para essas viver na Alemanha é bastante fácil. Eu particularmente gosto muito deste sistema. Sempre que eu me aborreço com atrasos no trem que preciso pegar, com a taxa da ARD a ser paga mesmo que eu não assista TV e com outras coisinhas, eu penso na tranquilidade e segurança jurídica que o país assegura aos seus cidadãos… e volto a ser feliz. Na realidade, devo te confessar que minha única preocupação é – voltando à primeira frase desta carta – a palavra “ainda”. A sociedade alemã “ainda” funciona. Porém alguns problemas aumentaram, outros surgiram, nos últimos dez anos. Mas isso a gente já sabe.
Recentemente foi criada uma campanha pelos órgãos de segurança que fala de “Zivilcourage”, ou coragem civil. Resumidamente, trata-se de uma chamada a encorajar o cidadão a tomar atitude diante de situações que tragam risco a si ou a terceiros, na rua ou em ambiente público. Não é fazer justiça com as próprias mãos, é saber posicionar-se e intervir quando necessário. Sabendo-se que o uso de força letal em um país democrático emana do povo, porém por definição da Constituição a sua execução é um monopólio do Estado, o cidadão comum não tem essa prerrogativa. Mas este pode ser um agente de inteligência, prevenção e suporte das estruturas deste Estado, tais como polícia, defesa civil, etc. É o apelo a não olhar para o lado, quando eu posso – e devo – intervir. Porque a polícia aqui é efetiva, mas ela não é onipresente e não deve ser acionada por qualquer banalidade.
Tal conceito poderia funcionar no Brasil? Creio que sim. E acho também que felizmente não sou o único a pensar assim.
Abração und bis nächste Woche!
Armando

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