Cineclube 01/07/2019 22h13 Atualizado às 09h15

Amigos do Cinema exibe o filme Neve Negra nesta terça

Filme de Martin Hodara, tem Ricardo Darín no elenco

Neve Negra, de Martin Hodara, não chega a ser exatamente um “Darín movie”, embora Ricardo Darín esteja no elenco e, por si só, seja um trunfo. Como ele é mais do que dele espera seu eleitorado, mostra que pode render além da imagem padrão de charme, olhos claros e tristes, fisionomia gasta pela vida de maneira regular e generosa. Ele interpreta um papel mais radical do que de hábito. E esse é o filme que a Associação dos Amigos do Cinema exibe nesta terça-feira, a partir das 20 horas, na sede do Sindibancários (Sete de Setembro, 489), com entrada franca.

Darín interpreta Salvador, um dos pivôs de uma tragédia familiar que estabelece relação belicosa entre dois irmãos. Salvador é o que ficou na propriedade da família na Patagônia e vive da caça. Marcos (Leonardo Sbaraglia) é o que saiu para o mundo e agora regressa, trazendo sua mulher. Além do litígio entre irmãos, há uma questão premente – a venda das terras, já que uma empresa estrangeira oferece uma fortuna por elas. Marcos quer vender porque tem muitas despesas. Mas Salvador não: as matas que circundam o sítio são sua reserva privativa de caça.

A prática da caçada tem a ver com a atmosfera pesada e ameaçadora que flutua sobre a família. O próprio andamento do filme vai dando pistas ao espectador através de flashbacks. Nem por isso entrega de todo o segredo que paira sobre a montanha, o qual será revelado nos atos de desfecho da história. Um detalhe técnico: quem achar que a paisagem da Patagônia, que conhecemos de outras produções argentinas, parece mais europeia do que de costume, acertará na mosca. As filmagens de neve foram rodadas nos Pireneus, entre a França e a Espanha.

DARK
Darín, numa nota mais dark, não decepciona. Sbaraglia interpreta um dos seus melhores papéis. Fernando Luppi, o advogado da família, acrescenta um toque de classe. Elenco, fotografia, cenários – tudo aponta para um “cinema argentino de qualidade”, com bom trânsito entre o público e responsável, muitas vezes, por comparações depreciativas em relação ao cinema brasileiro, que seria desprovido dessas virtudes de artesanato e bom gosto. Não é bem assim, mas preconceitos arraigados são difíceis de remover. Em todo caso, este, que é o filme de estreia de Hodara, é exemplo de como se pode fazer cinema de diálogo com o público sem insultar a inteligência.

Denso e interessante, tenso e bem acabado, Neve Negra passa a impressão de ser um daqueles filmes pensados demais, com pouco espaço para a intuição e a invenção. Sente-se que partiu de um roteiro rígido, filmado de maneira minuciosa para manter viva a tensão, contendo pontos de inversão de perspectivas e surpresas finais. Esse esquematismo de prancheta lhe tira um pouco o frescor do inesperado e lhe dá tom um tanto artificial, construído em exagero. Mas é um bom filme.