Troféu especial 23/10/2019 21h11 Atualizado às 12h09

Tuio Becker: um prêmio à vida

Roteirista, diretor e crítico santa-cruzense tem a sua história imortalizada com o troféu especial do Festival de Cinema

O 2º Festival Santa Cruz de Cinema inova: introduz o Prêmio Tuio Becker para contemplar personalidade relevante no ambiente da cinematografia nacional. O primeiro agraciado será o ator carioca Leandro Firmino, 41 anos, o Zé Pequeno do filme Cidade de Deus. O santa-cruzense Tuio, falecido em 2008, aos 65 anos, tem, deste modo, seu nome colocado em destaque num evento em sua terra natal, algo com o qual ele talvez nem se sentisse muito confortável ou à vontade, uma vez que era avesso aos holofotes. “Mas sem dúvida fez por merecer a homenagem”, avalia seu sobrinho Ricardo Richter, mais conhecido por Mico Richter, hoje dono de agência de publicidade em Santa Cruz.

O festival acaba por firmar reconhecimento a um dos maiores críticos da cinematografia do Estado e do País, o que era enfatizado por especialistas. Mais do que crítico acurado, intuitivo e sensível, Tuio era apaixonado por cinema, arte que dominava como poucos, pois atuara, na prática, em quase todas as áreas relacionadas à atividade, de roteirista a diretor, ator e divulgador. E Mico Richter pode falar com propriedade dessa trajetória, porque foi testemunha de carteirinha da caminhada de formação e de projeção nacional e internacional do tio.

Tudo começou, claro, em Santa Cruz. Luiz Fernando Becker, que viria a adotar o nome artístico de Tuio Becker, nasceu em 8 de agosto de 1943, filho mais novo, temporão, do casal Vitor Hugo e Clotilde. Sua irmã Lia Norma casara-se com Gerd Richter, e estes tiveram os filhos Ricardo, o Mico, hoje com 69 anos; Geraldo, Eduardo e Marília. A diferença de sete anos entre o tio Tuio e o sobrinho fez com que ambos convivessem ao longo da infância. “Ele foi uma espécie de irmão mais velho e de melhor amigo para mim”, recorda Mico. “Uma das primeiras lembranças que tenho é das gavetas de um armário no quarto do Tuio, quando jovem, repleto de recortes de jornais e de fichas técnicas e cartazes de filmes. Ele guardava todos os materiais possíveis”, frisa.

Mico refere que a fascinação pelo cinema esteve presente na vida de Tuio desde quando era menino, e se fortaleceu ao longo da adolescência e na chegada ao mundo adulto. Os pais dele assinavam revistas sobre cinema para ele, como a popular Cinelândia, e Tuio devorava tais conteúdos. “Penso que o título do livro dele, Sublime obsessão, sintetiza à perfeição o prazer e o gosto dele pela área”, refere.

A família de Tuio residia na Rua 28 de Setembro, em área central, no prédio no qual depois funcionou o Banco Mercantil de São Paulo e hoje fica a Clip Graffite. “Acredito que o primeiro contato do Tuio com o cinema deve ter sido em alguma sessão na sala escura da Sociedade Ginástica, do outro lado da rua, que costumava exibir filmes. Deve ter saído deslumbrado. Creio que ali se firmou a paixão dele por essa arte”, menciona Richter.

O patrono da cadeira 10
O crítico de cinema e cineasta santa-cruzense Tuio Becker já tem seu nome eternizado também na Academia de Letras de Santa Cruz do Sul (Alesc). Ele é o patrono da cadeira de número 10, cujo primeiro ocupante é o jornalista, poeta e escritor Mauro Ulrich, editor de Cultura e Variedades da Gazeta do Sul. A partir do momento em que o nome de Tuio foi selecionado dentre os homenageados da entidade, todos nomes relevantes na cena cultural da cidade e da região, prontamente Ulrich decidiu que adotaria essa cadeira. Em ensaio que elaborou para uma obra coletiva dos acadêmicos a ser lançada em breve, que dedicarão, cada um, artigo ao patrono de sua respectiva cadeira, Ulrich recuperou a importância de Tuio para o cinema e o ambiente cultural gaúcho. Sob o título “Tuio, câmera e ação!”, o ensaio ainda inédito de Ulrich resgata momentos marcantes na formação e na carreira de Tuio, as grandes amizades e as influências para a sua obra.

Rumo a Porto Alegre, e ao mundo
Como Tuio cresceu já profundamente envolvido com arte e cultura, no início da década de 1960 mudou-se para Porto Alegre a fim de cursar Arquitetura na Ufrgs. Lá conviveu com um grupo de jovens, alguns deles santa-cruzenses, que partilhavam a disposição por desenvolver projetos culturais, em especial no cinema.

Anos mais tarde, quando chegou sua vez de seguir para o ensino superior, Mico revelou a influência que Tuio teve sobre sua própria formação: foi igualmente para a capital a fim de frequentar o mesmo curso de Arquitetura na Ufrgs. E foi morar no mesmo endereço no qual Tuio residira – este, já formado, passara a residir em outro local. “O Tuio foi um ídolo para mim, um herói. Inspirado nele me formei em Arquitetura, e a exemplo dele me tornei publicitário, carreira que também seguiu”, menciona.

Em Porto Alegre, Mico inclusive integrou um grupo que Tuio formara, o Câmera 8, dedicado a filmar documentários e outras produções. “O Tuio na verdade era o centro de tudo. Fazia o roteiro, dirigia, atuava, editava, estava em tudo. E sempre lendo mais, se aperfeiçoando mais”, comenta Mico. E valorizou muito o trabalho em equipe, como fez nos filmes que dirigiu. “Ele sabia que jamais se pode realizar um filme sozinho, e assim aprendeu a salientar as contribuições de cada um nas equipes técnicas”, cita.

E começou a viajar, a frequentar festivais, a realizar coberturas de eventos dentro e fora do País. Tornou-se fluente em várias línguas estrangeiras, em especial em inglês, francês e espanhol. Mico ainda guarda, como relíquia, cadernos pautados nos quais registrou apontamentos e comentários a respeito de um festival que foi acompanhar em Barcelona, em 1973, quando estava com 30 anos. E essa cidade acabou se transformando em uma espécie de ponto de passagem obrigatória de Tuio em suas viagens à Europa. “Ele pegava um voo para Barcelona, e de lá é que ia adiante para seus demais destinos no continente. Depois retornava ao Brasil novamente saindo de lá”, recorda.

Em certo momento, Tuio chegou a viajar à Romênia para festival de filmes romenos, que conferiu no original. Foi ainda para inúmeros países africanos. E acumulava peripécias, muitas das quais, de volta ao Brasil, compartilhava com Mico, para delícia deste.

Cinema como uma sublime obsessão
Se posteriormente firmou seu nome como crítico de cinema, acurado e sagaz, já se exercitava escrevendo sobre a área desde os 17 anos, quando começou a publicar seus textos nas páginas da Gazeta do Sul. Mais tarde publicou em  veículos como Folha da Manhã, Folha da Tarde, Zero Hora e Correio do Povo. Uma seleção desses artigos resultou no livro Sublime obsessão, publicado em 2003. Antes disso, lançara dois livros sobre cinema gaúcho. E como diretor assinou cinco curta-metragens, um média, em super-8; e um longa, em 16 mm, em co-direção com Sérgio Silva, a produção Heimweh, Nostalgia.

Entre os realizadores pelos quais Tuio certamente tinha enorme predileção, Mico Richter acredita que estava o italiano Roberto Rossellini (1906-1977). “E, pelo que recordo, gostava muito do cinema neorrealista italiano, uma espécie de contraponto ao cinema norte-americano, de Hollywood”, diz. Ao final de sua vida, acometido de Alzheimer, ainda residindo em Porto Alegre, Tuio vinha com regularidade visitar os familiares em Santa Cruz, e Mico recorda de inclusive tê-lo acompanhado de volta à capital em uma de suas últimas vindas. “Ele foi um exemplo, uma pessoa simplesmente espetacular. E fico muito feliz que o Festival Santa Cruz de Cinema esteja fazendo essa homenagem, que considero nada menos do que justa”, salienta.

O QUE LER

Foto: DivulgaçãoSublime obsessão, com crônicas, pela Unidade Editorial, em 2003
Sublime obsessão, com crônicas, pela Unidade Editorial, em 2003
Foto: DivulgaçãoCinema gaúcho: uma breve história, pela Editora Movimento, em 1986
Cinema gaúcho: uma breve história, pela Editora Movimento, em 1986