FALANDO EM DINHEIRO 05/01/2021 15h42 Atualizado às 16h44

A vacina financeira para o Ano Novo

O novo coronavírus trouxe uma avalanche de complicações, mas a situação também levou as pessoas a pensarem e se prepararem para o longo prazo

Talvez faça muito tempo em que um ano, como o de 2020, “vai que já vai tarde.” Quem poderia ter imaginado, no início de 2020, que teríamos um ano tão atípico, desafiador. Até pessoas que fazem previsões para todos os anos, não falaram nada; o babalorixá Pai Antônio alegou, conforme matéria especial da Gazeta do Sul de 26/27 de dezembro de 2020, que já sabia, em 2017, da ocorrência da doença do coronavírus, mas que “os espíritos não quiseram que fosse divulgada.” Explicou Pai Antônio que “muitas vezes a gente se segura para não dizer tudo, pois poderemos ser vítimas de alguma situação ou, até mesmo, provocar o pânico e a histeria na comunidade.”

O fato é que, para o bem e para o mal, a maioria dos brasileiros – 72% se sentiram, de alguma forma, prejudicados – vai querer esquecer o ano. O novo coronavírus trouxe uma avalanche de complicações que vão desde problemas nas finanças de grande parte da população e de milhares de empresas, até impactos na sociedade, na educação e na saúde das pessoas. Perda de negócios, de empregos, redução de rendas, endividamento e inadimplência, planos que ficaram no papel, viagens que não saíram, enfim, a lista de infortúnios é enorme.

A situação, então, está levando as pessoas a pensarem e se prepararem para o longo prazo. Uma pesquisa da XPEED mostrou que 80% dos brasileiros possuem objetivos financeiros e os principais são quitar as dívidas e formar uma reserva para imprevistos. Entretanto, apenas um em três acredita que de fato vai conseguir alcançar esses objetivos, sendo que apenas metade desses se esforça para alcançar esses objetivos.

A mesma pesquisa da XPEED identificou uma diferença muito grande entre a autoavaliação do conhecimento financeiro dos brasileiros e a capacidade de responder a questões simples, como noções sobre juros e inflação. Uma pesquisa realizada pela Standard & Poor, em 2014, com mais de 150 mil adultos ao redor do mundo, inclusive no Brasil, já tinha identificado que a cada três pessoas, duas não possuem educação financeira.

No geral, apenas 35% dos homens são educados financeiramente, contra 30% das mulheres, com o detalhe que elas tendem a ser mais honestas sobre seu nível de conhecimento; em algumas perguntas de finanças elas não enrolaram, simplesmente responderam “eu não sei”.

Apesar ou por causa desses problemas financeiros, muitas vezes permanentes, a maioria das pessoas alimenta o sonho de ter uma situação financeira mais folgada ou, pelo menos, mais equilibrada, o que possibilitaria usufruir de maior tranquilidade em outras áreas da vida, também.

Para muita gente, o fato de não ter, ainda, realizado esse sonho seria o baixo salário, aposentadoria, pensão ou outra renda qualquer; ou, então, outras causas, como o desemprego ou a redução de renda. Em alguns casos, isso é verdade, embora a renda mais alta, por si só, não melhora o comportamento financeiro do brasileiro.

Muitas pessoas até conseguem, a duras penas, ter um equilíbrio financeiro, empatando receitas com despesas. Isso, entretanto, ainda não significa que elas sejam educadas financeiramente. A educação financeira vai muito além de saber fazer cálculos, pesquisar, utilizar planilhas, etc, o que apenas são técnicas descritas pelas finanças pessoais. A Educação Financeira é uma ciência humana que promove uma mudança de comportamentos, hábitos e costumes em relação ao dinheiro. O objetivo da educação financeira é a realização de sonhos e não o consumo imediatista.

A educação financeira também se aprende ou seria aquele tipo de conhecimento ou habilidade que alguns têm, outros não? Muitas pesquisas sobre educação financeira, publicadas nos últimos anos, buscam identificar a validade desses programas e principalmente se a educação financeira realmente funciona.

Nesse sentido, Thiago Godoy, head de educação financeira da XP Inc e especialista em psicologia do dinheiro e bem estar financeiro, publicou, em 19/11/2020, o artigo “A Educação Financeira funciona?”, em que ele diz que 1º) há evidências claras de que a educação financeira não só afeta o conhecimento financeiro como, também, o comportamento financeiro; 2º) a educação financeira faz diferença na vida das pessoas; 3º) diferente de outras matérias que, em pouco tempo, são esquecidas, o aprendizado da educação financeira é levado pela criança e pelo jovem para a sua vida adulta.

Como dito anteriormente, há estudos que mostram os ganhos da educação financeira na vida das pessoas. Além disso, a partir deste ano, conforme determinação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a educação financeira deve constar na grade disciplinas das escolas brasileiras.

E quem já passou dessa fase da vida e, como costuma se dizer, precisa “matar um leão a cada dia” para dar conta de suas necessidades e compromissos financeiros? Todos podem aprender a administrar bem o seu dinheiro.

O passo fundamental é conscientizar-se de que isso é possível e, em muitos casos, como a atual pandemia mostrou, necessário. Muitas vezes, é um desafio que exige uma mudança pessoal, o que geralmente não é fácil, como em qualquer área da vida. Olhar a situação com clareza, maturidade e decidir construir dias mais tranquilos e saudáveis são atitudes que podem ajudar a vencer esse desafio.

Dicas adquiridas em artigos de jornais ou revistas, em sites da internet, até em livros, palestras, cursos, workshops, etc., são importantes e podem, pelo menos, despertar o interesse e ações para lidar melhor com o dinheiro. Sim, em alguns casos, é preciso buscar ajuda de especialistas, como se faz em qualquer área de nossa vida, seja na saúde, na manutenção da casa ou no conserto do carro.

Das muitas estratégias de recuperação econômica pós Covid-19, na área da saúde a principal é a aplicação em massa da vacina. Já na área das finanças pessoais, a vacina é outra: a Educação Financeira. Trata-se de uma ferramenta para nos ajudar no presente e nos deixar melhor preparados para o futuro, não só para a longevidade financeira, mas, também, para enfrentar crises de mais ou menos gravidade.

Feliz 2021!

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