Anjo da morte 27/10/2019 22h57 Atualizado às 18h44

Obra retrata fuga de Josef Mengele

Narrativa ficcional facilita a amarração de pontos soltos da trama sobre o período em que Mengele permaneceu escondido

Os acontecimentos associados à Segunda Guerra Mundial, ao Holocausto provocado pelos nazistas na Alemanha, já estão há mais de sete décadas no passado. Mas seus vestígios e seus efeitos, em especial os dos campos de concentração e de extermínio, tendem a jamais se apagar. Nesse ambiente, alguns nomes pairam como pesadelo sobre a condição humana. É o caso do oficial alemão Josef Mengele.

Médico em Auschwitz, teve poder sobre a vida (e, mais comumente, a morte) de milhões de pessoas. Tão logo a guerra terminou, Mengele surpreendentemente conseguiu passar incólume. Misturado a outros presos, escapou das tropas russas e se manteve oculto, com documentos falsos. Até fugir da Europa rumo a ares menos perigosos para figura de seu naipe.

Muitas coisas seguiam nebulosas quanto a seus périplos. No entanto, em 2019 parece que o propósito do mercado editorial é iluminar mais detidamente esse personagem, morto há 40 anos. Em abril a Cultrix lançara aquela que é considerada a biografia definitiva do médico, Mengele: a história completa do Anjo da Morte de Auschwitz, de Gerald L. Posner e John Ware, em tradução de Mário Molina. E agora chega nova contribuição: o romance O desaparecimento de Josef Mengele, do jornalista francês Olivier Guez, 45 anos, lançado na França em 2017 e agraciado com o Prêmio Renaudot, um dos principais naquele país.

A opção de Guez pelo formato da narrativa ficcional, como esclarece, teve por propósito facilitar a amarração de pontos soltos da trama sobre o período em que Mengele permaneceu escondido. Havia suposições, mas informações e boatos se desencontravam. Uns diziam que estava morto, outros que ainda estava na Europa. Como muitas entidades intuíam (havia rastros mais frescos), na verdade estava na América do Sul.

Como relata Guez, com base nos registros históricos, incluindo a biografia de Posner e Ware, Mengele, com o nome de Helmut Gregor, embarcara em navio em Gênova com destino a Buenos Aires. Na capital argentina encontrou um paraíso para os fugitivos nazistas: o presidente Perón acolhia a todos. A ideia era valer-se dessas cabeças e das suas fortunas para transformar a Argentina em uma potência mundial. No entanto, à medida em que a opinião pública internacional passou a cobrar punições e justiça, ao longo da década de 1950, Mengele precisou fugir uma vez mais, para o Paraguai, e de lá em seguida para o Brasil.

Adotou um esconderijo em propriedade rural afastada no interior paulista, e ali, mantendo contato regular com informantes e emissários de sua família, acompanhou a evolução nas perseguições e os boatos de que estariam próximo de capturá-lo. O romance de Guez consegue dimensionar um personagem que, carregando as lembranças de seus (mal)feitos do passado, dos quais jamais se arrepende, depende cada vez mais de pessoas que conhecem a sua real identidade, e que exploram financeiramente a família a fim de se manterem calados.

Ao contrário de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto, julgado em Jerusalém e condenado a enforcamento, Mengele nunca foi pego. Outros grandes líderes nazistas tiveram destino ainda mais tranquilo, reabilitados junto de suas famílias. Mas Mengele seguiu fugindo, até a velhice, e acabou morrendo por afogamento em Bertioga, praia no litoral paulista, em 7 de fevereiro de 1979, aos 67 anos, bastante decrépito e com muitos problemas de saúde. Ali, a morte colhia o alcunhado Anjo da Morte, que acabou nunca sendo confrontado efetivamente com a justiça, da qual conseguiu se esquivar.

Ficha

Foto: Divulgação


O desaparecimento de Josef Mengele, de Olivier Guez. Trad. de André Telles. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019. 224 p. R$ 39,90.