Direto da redação 05/10/2018 23h46 Atualizado às 11h21

Vamos aos fatos

Decidir se tornaria uma tarefa mais fácil se conseguíssemos nos ater aos fatos apenas. É bom ter opiniões, mas que se entenda: elas têm vida própria

Existe a ideia de que servir “a algo maior” nos previne de um de nossos piores traços – o egoísmo. Precisaríamos, portanto, encontrar um propósito que tirasse o foco, pelo menos por alguns períodos, de nossas próprias necessidades. A ideia não é nova, mas penso que serve bem ao atual momento de véspera de uma eleição.

As campanhas oficiais de incentivo à participação dos eleitores concentram a mensagem na ideia de que votamos para melhorar o País (ou o município, ou o Estado). Que devemos, em conjunto, nos manifestar escolhendo aqueles que mais façam bem à nação. Mas será mesmo que, quando nos posicionamos politicamente, é em algo maior que pensamos?

Acredito que, como eleitores, somos a representação do egoísmo. Buscamos o candidato que melhor expressa nossas pequenas convicções e, no pior das vezes, nosso voto procura o benefício direto, a compensação pessoal ou familiar. Nunca pensamos em um projeto de país e sim naqueles governantes que prometem realizar coisas aparentemente muito difíceis ou até impossíveis. Daí a tendência dos discursos de acenar com programas disso ou daquilo, até com nomes criativos. Sempre a ideia de benefícios e não de ter um país melhor em termos gerais. Porque assim todos esses benefícios se tornariam possíveis.

Mas é preciso votar – temos de escolher alguém, ou nenhum, se nossa opção for anular. Então, como se decidir? Nessa linha, lembro de uma recente entrevista do ex-presidente americano Barack Obama em que narra uma discussão entre dois senadores, um deles já falecido. No calor do momento, um dos contentores reclama: “O senhor não pode me contestar tanto. Eu tenho o direito a minhas próprias opiniões”. Ao que o outro interpõe: “Sim, o senhor tem direito a suas próprias opiniões. Só não tem direito a seus próprios fatos”. É outro país, outra realidade, mas aqui importa só o conteúdo.

Talvez, mas apenas talvez, decidir se tornaria uma tarefa mais tranquila se conseguíssemos nos ater aos fatos apenas. É bom ter opiniões, mas que se entenda: elas têm vida própria, e nem sempre conectada à realidade. Significa dizer que somos todos capazes de externar boas intenções, que podemos sim apontar caminhos, mas no fim os fatos é que devem prevalecer. O mundo é cheio de limitações. Ignorá-las e apenas despejar promessas não ajuda; só o enfrentamento das dificuldades é que nos permite achar formas de superá-las. É chato e dá trabalho, contudo não há outro jeito de fazer.
Vamos escolher em quem votar analisando o que seus programas trazem de fatos, acima das promessas e das boas intenções. Os próximos governantes precisam ser bons com a realidade, não apenas com as palavras.