Economia 29/04/2019 16h27

Por que é tão difícil poupar?

No início do ano passado, uma pesquisa mostrou que 56% dos entrevistados tinham interesse em poupar para investir

Pesquisa recente realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (ANBIMA) constatou que apenas 8% da população economicamente ativa conseguiu guardar algum dinheiro para aplicação em produtos financeiros, no ano de 2018, embora 25% dos entrevistados tenham dito que investiram, considerando a aquisição de automóvel e imóvel, principalmente.

O que chama a atenção neste pequeno percentual é que, no início do ano passado, outra pesquisa feita pela mesma associação, mostrava que 56% dos entrevistados tinham interesse em poupar para investir, durante aquele ano. Fica claro, então, na comparação entre as intenções e os números efetivamente realizados, que ainda não foi em 2018 que o brasileiro conseguiu poupar e investir. Por que, então, é tão difícil poupar?

Um dos principais motivos alegados é a falta de dinheiro, que, em muitos casos, é verdade. Mas, muitos especialistas apontam a cultura imediatista do brasileiro que, numa eventual sobra, independente de classe social, prefere comprar alguma coisa que aplicar em algum investimento.

Para muitos, poupar é tão difícil quanto começar uma dieta, praticar exercícios físicos, parar de fumar, enfim, existem tantas coisas que as pessoas gostariam ou deveriam realizar ou abandonar, eventualmente até por recomendação médica, mas que, por algum motivo, não conseguem implementar. O mais intrigante é que, muitas dessas intenções ou desejos nem dependem – ou não dependem tanto – do salário ou da renda recebida.

Todos entendem o significado da palavra poupar que pode ser usada em diferentes situações. Mas, quando se refere a dinheiro, por exemplo, pode despertar diversos e até contraditórios sentimentos. Para muitas pessoas, é difícil ou até impossível poupar; para outras, é coisa de pessoa mesquinha, “pão dura”. Mas, para um número pequeno de pessoas poupar já faz parte da vida e pode ser tão ou mais prazeroso e gratificante do que, simplesmente, gastar o dinheiro na compra de algum item da moda, por exemplo. Talvez seja por isso que os americanos usem a palavra “salvar” em vez de poupar dinheiro. Na verdade, a pessoa salva seu dinheiro de si mesma, para não gastá-lo em coisas supérfluas. Assim, um dos conceitos que melhor define o ato de poupar é “sacrificar o consumo no presente para fazer um melhor proveito no futuro”.

Um pensamento muito comum é propor-se a guardar ou salvar o dinheiro que sobrar no final do mês. É uma estratégia errada porque, simplesmente, nunca sobra dinheiro no fim do mês, quando não falta. Aliás, se sobrasse, não deveria ser usado para poupar. Como dizem os autores de um livro da série O Milagre da Manhã – Hal Elrod, David Osborn e Honorée Corder -, talvez o conselho mais popular relacionado a finanças pessoais seja “pague primeiro a você”, isto é, tire um pouco do que entra e, antes de qualquer outra atitude, reserve para investir.

Há pessoas que dizem que não conseguem poupar de forma alguma; às vezes, apenas conseguem pagar as contas em dia, quando não atrasam. Mas, será que querem poupar mesmo? Há certos fatores psicológicos envolvidos: 1) ausência de força de vontade; 2) a procrastinação: sempre adiar para o mês seguinte; 3) a inércia: simplesmente, não fazer nada. A maioria das pessoas que não poupa não percebe as consequências do consumo desregrado. Não pensa no longo prazo, no futuro. Só no presente.

Igual a outros, poupar também é um hábito. Como podemos desenvolver hábitos que nos ajudem a poupar, evitar compras por impulso e a cuidar melhor do dinheiro? Existe um método que pode ajudar a tirar metas ou objetivos do papel, aplicado também para começar a poupar dinheiro: a regra do minuto. A ideia é dedicar um minuto a uma tarefa do dia, sempre no mesmo horário. Se a pessoa quer começar a poupar, então, todos os dias, num mesmo horário, ela para por um minuto para verificar e refletir sobre o que está fazendo para atingir esse objetivo. Alguém pode dizer que “um minuto não é nada”. Entretanto, com a regra do minuto a pessoa começa a desenvolver um hábito em cima desse objetivo ou tarefa sem sacrifício e sem esforço; depois, aos poucos, começa a aumentar esse tempo e, certamente, vai achar saídas para mudar hábitos.  

Ao querer adquirir o hábito de poupar, algumas dicas:  1ª) mudar um hábito por vez: não adianta querer  emagrecer, fazer exercícios, economizar, etc., tudo ao mesmo tempo; 2ª) começar a medir: ter  um caderninho ou um aplicativo do celular onde anotar  cada vez que agir diferente do que  se propôs; 3ª) isolar o gatilho: identificar o que desencadeia a ação da compra por impulso: 4ª) não se “castigar” quando cometer algum deslize, mas dar-se conta dele para evitá-lo numa próxima  oportunidade; 5ª) substituir o mau hábito em vez de querer eliminá-lo:  comprar produtos que atendam às necessidades ou desejos,  mas que sejam mais baratos.

A maior dificuldade para as pessoas começarem a poupar é a falta de definição de objetivos, a realização de sonhos. Isso faz parte da educação financeira. Se a pessoa tiver bem claro e definido o que ela quer alcançar – comprar uma moto, um carro, a casa própria, enfim, são tantas coisas que as pessoas desejam - fica mais fácil salvar seu dinheiro e investi-lo.  Ao receber o salário ou a renda, antes de qualquer pagamento, a pessoa deve apartar o dinheiro necessário para a realização de algum sonho. A metodologia da DSOP – Educação Financeira ensina isso ao propor uma forma de orçamento que prevê Ganhos (-) Sonhos (-) Despesas em lugar do tradicional Ganhos (-) Despesas (=) Falta ou Sobra. Assim, a pessoa ou família passam a viver com o que sobra, depois de apartado do salário ou da renda o valor dos sonhos que, é claro, deve ser investido em algum produto financeiro.