Direto da redação 13/10/2018 01h19 Atualizado às 15h48

A primeira feminista que conheci

Minha mãe não usou Simone de Beauvoir para dizer que eu deveria ser dona das minhas escolhas, mas ensinou como não baixar a cabeça

13 de outubro de 2014 foi o dia em que eu atravessei o hospital correndo, abri a porta do quarto e gritei. Soluçando me estendi sobre o corpo dela que começava a ficar gélido, embora ali, tão perfeito, de cabelo penteado, pele lisa e unhas feitas. Não fazia dois dias que eu e dona Fátima tínhamos feito planos corriqueiros. Sairíamos daquele quarto, comeríamos um Krep de chocolate com queijo (o sabor preferido dela) e voltaríamos para assistir a um filme em casa. “Tá bem, mãe, eu assisto filme dublado.”

Quando atravessei o corredor do hospital, entendi que aqueles planos nunca mais se concretizariam. Como seria dali para frente? Me mentiu quem disse que o tempo alivia perda de mãe. Tempo cuida do machucado, mas também faz aumentar uma vala com profundidades que desconheço chamada saudade. A falta que sinto, aliás, completa hoje quatro anos.

Dona Fátima se foi em 13 de outubro de 2014 e parece que a cada novo dia me manda alguns sinais. São as lições que tratou de me deixar ainda nesse plano, mas que somente hoje ressignifico e tenho condições de dar um novo sentido.
Minha mãezinha me ensinou sobre feminismo sem nunca ter usado esse termo. Me disse para ser resistente e não baixar a cabeça. Falou que não aceitasse destrato de ninguém, muito menos do meu futuro companheiro. Me mandou estudar e não depender de pai, nem de marido. Que eu dependesse – sempre – de mim mesma. (Entendem, agora, porque os salários e condições de trabalho devem ser iguais?)

“Casamento? Só se tu quiser, minha filha. Quem é dona do teu destino é tu.”  

Mama não usou Simone de Beauvoir para dizer que eu deveria ser dona das minhas escolhas, mas concedeu estímulos suficientes para que, por vontade própria, eu buscasse autoras que trouxessem um pouco mais de luz ao tema. Como seriam os nossos debates hoje? Fico só imaginando...

 Aproveito este espaço para, em nome de dona Fátima e de todas as irmãs que assustam-se com a falta de empatia dos nossos tempos, evidenciar a nossa força. Semana passada vi meninas de 12 e 13 anos apresentarem, em uma mostra de escolas estaduais, o projeto Diga Não ao Feminicídio. O objetivo foi contestar os papeis machistas e escrachar as consequências da violência de gênero. Sim, eu tenho fé no futuro.

A nossa revolução – esse movimento que busca a igualdade (jamais superioridade), que luta contra o assédio e a violência de gênero, que é contra a objetificação dos corpos femininos, que batalha, enfim, pelo direito de escolha, pela nossa liberdade – está só no começo. E vai crescer. Já tivemos provas muito claras na rua há poucos dias. É por isso que a minha homenagem hoje é toda dela: dona Fátima, a primeira feminista que conheci.