Direto da redação 14/06/2019 23h03 Atualizado às 17h01

Mentes planas

Tudo o que escapa de minha experiência diária não existe. Se algo não faz parte da minha rotina, este ‘algo’ é falso

Uma conhecida empresa de streaming de conteúdo disponibilizou há poucas semanas documentário sobre as pessoas, notadamente nos Estados Unidos, que acreditam que o planeta Terra é plano. Embora seja quase impensável discutir isso neste século, para dizer o mínimo, é exatamente o que estamos fazendo. O documentário de aproximadamente uma hora e meia conta a trajetória de Mark Sargent, americano que viu sua fama crescer desde 2015, quando começou a publicar vídeos no YouTube sobre o assunto. Em resumo, porque tal material pode ser visto com relativa facilidade, Sargent defende que vivemos em um planeta plano limitado nas “bordas” por paredes de gelo. E tudo isso abrigado sob uma redoma. Pois é, uma redoma...

Certamente todos os que acreditam na Terra plana são boas pessoas. Em sua maioria, pelo menos. Estão longe de representar uma ameaça e devem sua existência muito mais a um fenômeno de divulgação, como vemos a toda hora, do que à consistência de suas ideias. Não estão aí para serem levados a sério, mas muito mais para apenas serem vistos.

Defender algo que contrasta tanto com a realidade fica mais no campo da fantasia, é quase infantil e, portanto, inofensivo. Mas coisas assim nesta época ajudam a entender por que convivemos com pessoas que não querem se vacinar, ou mesmo os filhos; por que alguém como Donald Trump se elegeu presidente e por que há quem acredite no criacionismo. Ou seja, é o momento em que ideias “inusitadas”, vamos dizer assim, ganham espaço e conquistam adeptos. Citei algumas, mas a lista é gigantesca.

Isso seria resultado da tese, infelizmente atual, de que tudo o que escapa de minha experiência diária não existe. Se algo não faz parte da minha rotina, se não o estou apreendendo com os meus sentidos – muito falhos, diga-se –, este “algo” é falso. Se não posso “ver” os vírus na minha vida cotidiana, os que dizem que eles existem e provocam doenças só podem estar errados, ou pior, querem me enganar. Como a Terra plana, seria algo apenas risível, não houvesse o risco de adoecermos e morrermos por causa de males que estavam praticamente extintos há muitas décadas.

A propósito, na noite de 31 de maio para 1º de junho de 2009 – há dez anos, portanto – o voo Air France 447 caiu no Atlântico e matou 228 pessoas, a meio caminho entre Rio de Janeiro e Paris. Nele, durante cerca de dias horas, não foi possível aos pilotos se comunicarem com os órgãos de controle em terra porque as ondas de rádio não alcançavam as estações, bloqueadas pela curvatura da Terra... Nada de anormal, é também o que explica por que perdemos a recepção de uma rádio FM no carro quando nos distanciamos algumas dezenas de quilômetros dela.

A Terra não é plana, o que todos sabemos – ou deveríamos.